abril 19, 2004

HONRA A SALGUEIRO MAIA

Posted at abril 19, 2004 12:56 PM

"Trinta anos depois da euforia criada pelo 25 de Abril, há uma crise de confiança e de auto-estima. Dir-se-ia que os portugueses deixaram de acreditar em si mesmos e no futuro do seu país. E no entanto o 25 de Abril não foi só um programa de democratização, descolonização e desenvolvimento, foi também um projecto de justiça, em que os direitos políticos eram inseparáveis dos direitos sociais.

A imagem do 25 de Abril como “evolução”, que o governo anda a promover, traz consigo a ideia de apagar as lutas e as conquistas sem as quais não haveria sequer democracia em Portugal. Fala-se do progresso que ocorreu em Portugal nestas três décadas, mas dos bravos de Abril nem uma palavra. Mais do que nunca, é preciso lembrar o que deve ser lembrado e honrar quem deve ser honrado. Por isso recordo a memória luminosa e ímpar de Salgueiro Maia - um dos mais puros heróis militares portugueses de todos os tempos.

Espírito de missão e de serviço, desapego pessoal, coragem, excepcionais capacidades de decisão e de comando - as suas qualidades cedo se revelaram, primeiro em Moçambique, depois na Guiné, onde foi ferido em combate. Tinha todos os requisitos para uma carreira militar distinta que o levaria por certo aos mais altos cargos da hierarquia. Mas Salgueiro Maia não estava fadado para ser apenas mais um, ainda que brilhante, entre outros. Havia nele uma alma de paladino e de cavaleiro antigo. Além de uma forte consciência democrática, reforçada pela convicção de que era preciso encontrar uma solução política para a guerra colonial.

Toda a sua vida foi como que uma preparação profissional e espiritual para um dia, um gesto, um acto decisivo. Como os heróis do Teatro Grego ele estava destinado a aparecer em cena para desencadear a acção, mudar a vida, depois retirar-se e entrar discreta e directamente na História.

Era um homem marcado para uma missão, uma causa, um destino.
A missão era derrubar um regime, a causa - a liberdade, o destino - Portugal.
Como diria Fernando Pessoa “claro no pensar, claro no sentir e claro no querer”. A sua vida cumpriu-se num só dia. E esse dia foi o dia das nossas vidas.

Da arrancada de Santarém à capitulação da Ditadura, no Quartel do Carmo.
Mas o momento supremo, aquele que verdadeiramente decidiu o destino da revolução, foi esse momento absoluto e raro em que, de granada de mão no bolso, Salgueiro Maia conseguiu a rendição do comandante de Cavalaria 7, que dispunha de forças e meios superiores.

Com esse gesto de uma coragem e de uma beleza sem par, Salgueiro Maia garantiu o triunfo da Revolução de Abril.
Foi um só gesto - mas esse gesto pôs fim a meio século de tirania.
Foi só um momento - mas esse momento já é História.
Um gesto e um momento que fizeram de Salgueiro Maia o novo condestável da liberdade portuguesa. Actos assim pertencem à lenda e ao imaginário de um povo; mas nunca são perdoados pelos medíocres.

Grande na decisão com que venceu, Salgueiro Maia foi grande também na nobreza com que tratou os vencidos. E grande continuou, na modéstia com que se retirou de cena, na recusa de cargos e honrarias, na fidelidade à pureza inicial da Revolução de Abril.

Grande ainda na forma como desprezou a inveja e a mesquinhez, sorrindo por alto e por cima às humilhações e vexames que lhe fizeram.
Salgueiro Maia arriscou sempre tudo e nunca quis nada para si próprio.
Fez frente à doença e à morte com a mesma firmeza de carácter com que na madrugada do dia 25 de Abril partiu de Santarém para Lisboa.

Sabe-se que os deuses amam os heróis e que morrem cedo aqueles que os deuses amam. E sabe-se que homens como Salgueiro Maia suscitam sempre inveja e malquerença.
Faltava-lhe sofrer uma última perfídia e uma última ingratidão: a de ver recusada uma pensão que solicitara, a mesma que seria concedida a dois agentes da PIDE por serviços distintos.

Como diz o poema de Sophia de Mello Breyner:
“Nunca choraremos bastante quando vemos
Que quem ousa lutar é destruído
Por troças por insídias por venenos”.

Amanhã ninguém saberá o nome daqueles que o maltrataram. Mas enquanto houver língua portuguesa o nome de Salgueiro Maia será sempre sinónimo e símbolo de liberdade.

Vivemos um tempo de História do avesso. Celebrar os trinta anos do 25 de Abril tem de ser um acto de inconformismo contra a mentira, a mistificação e a falta de vergonha. Mas também de esperança e confiança na Democracia e no 25 de Abril - porque essa foi a causa pela qual, há trinta anos, Salgueiro Maia arrancou de Santarém para conquistar a vitória e entrar na eternidade."

Manuel Alegre
in Diário de Coimbra, 18/Abril/2004

Importante também é a nova análise estatística disponível no sítio do INE que contempla os últimos 30 anos da vida democrática portuguesa, analisando a evolução protagonizada pela Revolução de Abril.

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