abril 25, 2004

O MEU 25 DE ABRIL

Posted at abril 25, 2004 03:34 PM

Em boa verdade não vivi o 25 de Abril, pois ainda não tinha nascido e os meus pais ainda não tinham casado.

A minha mãe, aluna finalista de Línguas Românicas em Coimbra, viveu a revolução mais intensamente no meio estudantil, na caça aos bufos e no saneamento de professores e funcionários. Havia no dia 25 a informação de que estava em marcha «uma revolução em Lisboa», mas muita apreensão por não se saber se era de direita ou esquerda. Interessante como nos dias seguintes se desobriram algumas pessoas, supostos amigos, que eram quem fazia relatórios para a PIDE (na altura já DGS). Agora se tornava tão claro porque é que depois de algumas «conversas» se acordava, no dia seguinte, com uma prisão ou uma rusga da polícia política. O meu avô ainda esteve a braços com uma, em busca de livros subversivos. Felizmente não chegaram a um canto do sótão!

O meu pai, que deixara a tropa há dois anos, trabalhava na revisão durante a tarde na «Época» e à noite n'A Capital, tendo no dia 25 de Abril participado na feitura de 10 edições! Os militares não ocuparam estas instalações, mas a liberdade de imprensa fez-se sentir desde logo, com a edição planeada para sair, visada pela censura, a ficar pelo caminho...
No dia 30 de Abril haveria de estar no aeroporto à procura de armas, mas isso são histórias mais obscuras.

No Verão quente de 1975, altura de grande tensão, já estavam os meus pais casados e andava eu a dar murros e pontapés na barriga da minha mãe e posso dizer que vivi um pouco de toda esta agitação. Bébé em tenra idade, estive no levantamento de Rio Maior, em Novembro, no limiar da quase guerra civil, onde fiquei a saber que «se em Lisboa querem comida, então façam omeletes de parafusos!»

Como em todos os episódios da vida de uma pessoa e de um país, existiram coisas boas, coisas menos boas e coisas más, mas o mais importante foi o golpe de estado ter acontecido, porque provocou a revolução com a adesão maciça do Povo. Conquistou-se a Liberdade, Democracia, Justiça, Igualdade, e um sorriso imenso, numa luta que ainda não terminou e deve ser, ainda hoje, encorajada.

Miguel Rodrigues

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