julho 19, 2004

O NOVO PM DE PORTUGAL

Posted at julho 19, 2004 03:21 PM

Pedro Santana Lopes é herdeiro político de Durão Barroso

Enquanto José Manuel Durão Barroso se prepara para assumir a Presidência da Comissão Europeia, Jorge Sampaio exprime a sua preferência por Pedro Santana Lopes em vez das eleições que o povo pedia.

Presidente Jorge Sampaio decidiu ontem pedir ao número 1 do Partido Social Democrata, o maior partido na coligação governamental (juntamente com o Partido Popular, Conservador), formar um governo, poupando a coligação duma derrota quase certa numa eleição antecipada.

Pedro Manuel Santana Lopes aguarda o aval (certo) do seu partido para apresentar um novo governo ao Presidente na função de Primeiro-ministro.

Nasceu em Lisboa no dia 29 de Junho de 1956. Pedro Santana Lopes interessou-se pela política na sua infância, conversando com seu pai e avô. Entrou na faculdade de Direito de Lisboa em 1974, trabalhando como professor a noite e vendendo livros de dia para ajudar nos custos do seu curso.

Foi na faculdade de Direito que Pedro Santana Lopes começou a revelar as suas capacidades como orador, liderando um movimento estudantil (Movimento Independente de Direito) antes de se ingressar no Partido Social Democrata (PSD) em 1976.

Tendo terminado seu curso em 1978, ganhou uma bolsa de estudos do governo alemão para estudar Ciência Política e Estudos Europeus. Um ano depois, entrou na equipa do Primeiro-ministro Sá Carneiro, fundador do PSD, como conselheiro legal e em 1980, foi eleito Deputado da Assembleia Nacional, com 24 anos.

O Primeiro-ministro Cavaco Silva nomeou Santana Lopes como Secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros, posto que foi interrompido durante dois anos (1987-1989) quando foi membro do Parlamento Europeu. De volta a Portugal, foi Secretário de Estado de Cultura entre 1989 e 1994.

Foi daí que Pedro Santana Lopes deu provas daquilo que era capaz, restaurando edifícios degradados, lançando iniciativas múltiplas que testemunharam a criação de três orquestras, 48 bibliotecas, a modernização de numerosos espaços públicos – cinemas, anfiteatros, salas de exposição para pinturas e fotografias e financiamento público e privado para companhias e iniciativas suportando as áreas da dança, teatro, música e artes plásticas.

Pedro Santana Lopes cresceu com o posto, presidindo sobre o Conselho Europeu de Ministros de Cultura em 1992.

Em 1995, num breve intervalo da vida política, Santana Lopes se candidatou com êxito para a Presidência do Sporting Clube de Portugal, dando continuação ao trabalho de Sousa Cintra, estabilizando as finanças do clube e nomeando o pessoal que iria nos anos seguintes trazer os primeiros troféus a este clube lisboeta durante décadas.

Em 1997, tornou-se Presidente da Câmara da Figueira da Foz, ganhando louvores como o Presidente mais energético e com mais êxito de sempre. Melhorou a acomodação escolar, a rede rodoviária, melhorou áreas residenciais, parques públicos, a rede sanitária, criou empregos, aumentou o turismo e atraiu visitantes para os numerosos eventos culturais que patrocinou ou organizou.

Passado quatro anos, ganhou a eleição para a Câmara de Lisboa de forma brilhante, iniciando um programa ambicioso para melhorar os problemas de trânsito e uma série de iniciativas para dar mais-valias aos espaços urbanos e à vida dos lisboetas.

Acusado por alguns de aplicar soluções cosméticas em vez de estratégias de longo prazo, Pedro Santana Lopes é talvez o único membro desta coligação com o carisma suficiente para lhe dar qualquer hipótese eventual de vencer as eleições daqui a dois anos.

Como Primeiro-ministro, é justo dar a Pedro Santana Lopes uma folha em branco para ele escrever o seu destino.

Peter’s Principle

Cada pessoa sobe para o nível da sua incompetência


Assim vai o preceito inventado por Laurence J. Peter, chamado o “Princípio de Peter” (Pedro, em português). Será que Pedro Santana Lopes, o novo PM de Portugal, acertou na escolha do seu novo governo, ou será que o ex-autarca de Lisboa irá encalhar nas águas turbulentas da vida política portuguesa?

Em primeiro lugar, se bem que se pode perguntar ao eleitorado português, “Foi você que escolheu este Primeiro-Ministro?”, se pode perguntar com toda a justiça, “Foi Santana Lopes quem escolheu este governo?” A resposta seria “nim”. Um começo mau.

Seis dos 19 ministros são iguais ao executivo de Durão Barroso, que se apressou a instalar-se em Bruxelas, suspirando de alívio sem dúvida já que está livre do pesadelo que criou (uma duplicação da taxa de desemprego em dois anos – grande obra – e uma situação em que o desempregado tem de esperar até sete meses para receber qualquer subsídio do estado). Ainda mais, o novo Ministro de Negócios Estrangeiros (António Monteiro), é um amigo pessoal do antigo Primeiro-Ministro, que conseguiu manter o Ministro de Estado e da Presidência, Nuno Sarmento (que vê aumentado seu estatuto como Ministro de Estado) e José Luís Arnaut, agora Ministro das Cidades, Administração Local, Habitação e Desenvolvimento Regional, por procuração. Maria da Graça Carvalho continua no seu lugar como Ministra da Ciência e Ensino Superior e Luís Filipe Pereira continua como Ministro da Saúde.

Também o partido na coligação, o Partido Popular, xenófobo (que apesar do nome conseguiria angariar sensivelmente menos que 5% dos votos neste momento), viu aumentar o seu poder no governo, subindo de três para quatro ministérios e registando uma subida de cotação em termos de peso político, ganhando o Ministério das Finanças.

Assim António Bagão Félix, Independente mas ligado ao CDS/PP, transita do Ministério de Segurança Social e Trabalho para o Ministério das Finanças e da Administração Pública. Luís Nobre Guedes, o número dois do PP, assume o Ministério do Ambiente, que tanto surpreendeu a média em Portugal mas sem necessidade, visto que há um ano e meio dizia ao seu círculo de conhecidos que estava interessado nesta pasta. O novo Ministério do Turismo é criado para Telmo Correia, líder da bancada do PP no parlamento e Paulo Portas, o líder dos Populares, fica como Ministro de Estado e da Defesa Nacional, apesar de ter querido mudar de pasta (já farto de fazer revistas aos tropas e comprar helicópteros e submarinos para enfrentar qualquer eventual invasão da…Quirguistão?)

Dos restantes ministros novos, quantos são “Santanistas” e quantos pertencem às escolas dos barões do PSD, um partido vastíssimo em termos de vertentes políticas do centro e da direita? Poucos. Carlos Costa Neves, açoriano, Ministro da Agricultura, Pescas e Florestas, é próximo do Presidente do Parlamento, Mota Amaral (açoriano). Daniel Sanches, que agora ocupa a pasta de Ministro da Administração Interna, é protegido de Dias Loureiro (que ocupou esta pasta no tempo do Primeiro-ministro Cavaco Silva, 1987 – 1995) e José Aguiar-Branco (Ministro da Justiça, que substitui Celeste Cardona, PP) é amigo do antigo líder do PSD, agora comentarista político, Marcelo Rebelo de Sousa.

Restam apenas sete novas caras escolhidas pelo novo PM/Partido PSD/Presidente Jorge Sampaio (ex-Socialista, hoje em dia, ??). Na escolha de Álvaro Barreto, número dois do governo (Ministro de Estado, das Actividades Económicas e do Trabalho), Pedro Santana Lopes tem um animal político com uma história de grande competência em várias pastas…há dez ou vinte anos atrás. Quem o conhece hoje em dia diz que o Álvaro Barreto de hoje não é a mesma pessoa. Será fundamental seu empenho neste governo novo.

Maria João Bustorff é a novo Ministra da Cultura, Maria do Carmo Seabra assume o Ministério da Educação, Fernando Negrão chefia o novo Ministério da Segurança Social, da Família e da Criança, António Mexia entra na pasta de Ministro das Obras Públicas, Transportes e Comunicações.

Santanistas, Santanistas mesmo…são apenas dois. Henrique Chaves é o Ministro adjunto ao Primeiro Ministro (seu braço direito) e Rui Gomes da Silva é o Ministro dos Assuntos Parlamentares.

Afinal, o novo governo em Portugal é um guisado político com muitos ingredientes, uns mais indigestos que os outros e é precisamente aí que Pedro Santana Lopes vai ser julgado.

Quem o conhece, e apesar dos boatos, sabe que é um homem solidário com seus amigos, com preocupação social, com grande sensibilidade quanto a assuntos de exclusão social e de marginalidade.

Será que Santana Lopes tem a maturidade e a habilidade suficiente para ser um costureiro político capaz de reunir gregos e troianos que se agruparam a volta dele porque Pedro Santana Lopes é a única figura política no governo com carisma e qualidades pessoais capazes de evitar uma eleição precoce?

Ou será que o governo de Santana Lopes, que desde já muito favorece o empresariado português (que pouco ou nada entende da vida diária dos cidadãos), irá desmoronar-se numa guerrilha de interesses pessoais e de grupinhos de pressão?

Muito dependerá de Pedro Santana Lopes, a quem seria correcto e justo dar o benefício da dúvida, uma página branca para ele escrever os primeiros sinais, antes de começarmos a criticá-lo. O resto dependerá dos poderes da oposição, que tem todo o direito, e a obrigação, de se expressar.

Daqui a dois anos veremos se Santana governou bem ou se chegou ao nível da sua incompetência.

Timothy BANCROFT-HINCHEY

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