A notícia é arrepiante, revelada pela CBS e foi mantida secreta até agora pela hierarquia das forças armadas americanas. Conta que 17 militares, incluindo um brigadeiro, maltrataram e abusaram de prisioneiros americanos.
Na sua rotina, numa prisão perto de Bagdad, estes soldados tiravam fotografias humilhando os iraquianos e encenando poses sexuais, tendo sido descobertos depois de investigados, num processo que certamente irá terminar com as suas carreiras militares.
Esta notícia é gravíssima e mostra como uma nação que se diz humana e mais avançada que todas as outras, na verdade trata os seus prisioneiros como se fossem animais de criação prontos para abate.
Factos como este não são novos, e em Guantanamo, a história tem-se repetido, com maus tratos e torturas frequentes e total desrespeito pela Convenção de Genebra.
Jamal Udeen, um britânico que se encontrava no Paquistão a estudar cultura islâmica, foi preso na fronteira deste país com o Afeganistão (na verdade não existe um muro de betão a dividir estes dois países, nem na maioria dos países, ao contrário do que acontece, por exemplo, entre Israel e a Palestina), transportado para Guantanamo, preso, interrogado e torturado.
Segundo declarações de Udeen, após a sua libertação, os presos são mantidos em gaiolas de metal com chão de betão, a água é cortada antes das abluções, e o momento recreativo que os prisioneiros têm é caminhar numa estreita faixa de cascalho.
Udeen conta ainda que os militares lhes disseram: "Aqui vocês não têm direitos". De facto, passado algum tempo pedem, pelo menos que lhes proporcionem os direitos dos animais. Tudo é feito para psicologicamente os afectar e fisicamente os debilitar.
Na guerra vale tudo. Já sabíamos. Mas esperava sinceramente que países que se dizem do "primeiro mundo", dos mais desenvolvidos, dos poderosos, tivesse pelo menos uma pinga de integridade e de respeito. Uma das razões para os americanos invadirem o Iraque e capturarem Saddam não era precisamente para acabar com estes «episódios» do ditador?
Miguel Rodrigues
Parece que Durão Barroso está a digerir mal o prato do dia na Assembleia da República. A sobremesa ainda não foi servida hoje... Esperamos ansiosos!
«Francisco Louçã acusou o Governo de favorecer o grupo Carlyle na privatização da Galp e do banco do Estado, Caixa Geral de Depósitos, estar a ser o financiador dessa operação. Ao PortugalDiário, já no final do debate, o deputado atacou o que diz ser a «negociata do ano»: «Valentim Loureiro é um aprendiz de carpinteiro face a este negócio».
No plenário, o líder do Bloco de Esquerda atacou: «O ex-ministro dos Negócios Estrangeiros, Martins da Cruz, é o representante do Grupo Carlyle em Portugal, grupo que, segundo o Wall Street Journal é o gestor de negócios de Bin Laden no Ocidente». Como se explica então que tenha sido enviado como representante do Estado português a cerimónias no estrangeiros?, quis saber.
Louçã insistiu junto de Durão Barroso sobre o favorecimento «negocista» do Governo ao Grupo Carlyle na operação de privatização da Galp. E perguntou ainda se a Caixa Geral de Depósitos é ou não financiadora desta operação.
O primeiro-ministro respondeu de forma indignada e com fortes acusações a Francisco Louçã. «O senhor está constantemente a lançar insinuações e calúnias. Se sabe desse favorecimento por parte de algum membro do Governo que o prove», afirmou.
«Se não o provar está a mentir no Parlamento e a enlamear a democracia». E atacou o deputado na mesma moeda: «Mas pergunto-lhe o senhor trabalha para quem?».
«Quando não tem argumentos responde com insultos e indignação. O senhor tem de dar respostas no Parlamento e não faltar ao respeito», respondeu Louçã.
Perante os gritos do ministro da Defesa, Paulo Portas, que se mostrava fortemente irritado, e de toda a bancada da maioria, Louçã disse que não eram os gritos que o impediam de falar.
O fim do tempo para a interpelação bloquista acalmou as bancadas. O debate prosseguiu - sobre a Europa. »
A partir de segunda-feira vão ser entregues, durante 15 dias, cerca de meio milhão de bilhetes para o Euro 2004 em todo o mundo.
São 70 mil envios, dos quais 30 a 35 por cento se destinam ao mercado nacional, 40 por cento para a Europa, e 20 a 25 por cento para o resto do mundo. Para perto e para longe, Portugal vai unir os amantes do desporto, em particular do futebol, à volta de um evento único.
A bem ou a mal, conseguimos, e agora «só falta» levantar a Taça.
O jogo está quase a começar.
Será provavelmente este o pensamento que ocorre na pequena cabecinha de Santana Lopes quando se vê, pela manhã, ao espelho.
Numa espécie de exercício moralizador, dando razão à sua própria razão, repete estas palavras, que acabam por fazer eco entre as suas duas orelhas... grandeeee... grandeee...
Depois de ter (en)cravado em pleno coração de Lisboa um espinho que estrangula o trânsito e derrete os cofres da autarquia, Santana Lopes não tem problemas em vir para a rua e apregoar que a culpa é dos outros. Uma cabala, provavelmente.
Penso decididamente, que este será um virus que está a atacar os laranjas de há uns tempos para cá. Uma espécie de desresponsabilização viral, que faz estes políticos atirar as culpas num jogo do "passa a outro e não ao mesmo". O Governo atira as culpas para os socialistas que estiveram antes de si (até quando?), o presidente da Câmara de Lisboa atira as culpas (ou tenta atirar) para o Ministério do Ambiente e - pasme-se - até já tem convocada uma manifestação de apoio amplamente divulgada em anúncios de página inteira nos jornais.
Santana Lopes, beijoqueiro com grande experiência noctívaga e conhecedor acreditado do jet-set e das suas festas, mostra que o seu conhecimento é extenso e não acaba por aqui. Também domina muito bem duas artes circenses: os palhaços e saltos de trampolim. Se não for (como espero) reeleito para a câmara de Lisboa, nem passar de candidato a candidato à presidência da República, fica a ideia no ar para uma alternativa ao desemprego: talvez o aceitem no Chapitô, porque jeito não lhe falta.
Miguel Rodrigues
Os EUA perderam a guerra das palavras, e estão a perder a guerra no terreno, fruto da total desadequação e não preparação para o pós-guerra, que deixa espaço apenas para o caos.
E agora, os mortos que os Estados Unidos da América não querem que o mundo veja, particularmente os seus cidadãos, multiplicando o descontentamento crescente, as múltiplas interrogações, o apuramento dos factos e da verdade. Algo muito penoso para G. W. Bush, que está habituado a mentir desde que se candidatou à presidência americana.
Uma pergunta muito pertinente fica no ar, quando começam a existir países que (muito bem) retiram as suas tropas desta guerra injusta e sem qualquer rumo definido. A coligação americana/britânica vai entregar o poder a quem e com que legitimidade no final de Junho?
Não esquecer que estes são os mesmos EUA que unilateralmente declararam uma guerra neocolonizadora, declinando os pareceres das Nações Unidas.
Miguel Rodrigues
Polícias unidos jamais serão vencidos! Quase que os ouço em surdina...
Eis que decidiram convocar uma greve total das forças de segurança para dois dias após o início do Euro 2004.
Acho bem.
Se o Governo escolhe sempre fazer tudo à sua maneira (incluindo os pagamentos), porque não hão-de as forças de segurança escolher o timing e o pressing certo para verem as suas velhas reclamações e aspirações atendidas?
Desde que não esteja em causa a segurança nacional, a greve (que foi uma vitória de Abril), é sempre uma boa maneira de dar a entender que o pão e o queijo nem sempre estão na mesa do Conselho de Ministros.
Miguel Rodrigues
Neste pior momento, a selecção nacional é o espelho perfeito do nosso Governo... só empatam, perdem, empatam, perdem... ai Ricardo... que dor!
Aguenta coração!
Mas tenho fé: em Junho joga-se a sério! (Algo que o executivo do Dr. Durão não sabe, nem percebe o que é).
Miguel Rodrigues
«ESTUDO RECENTE CONCLUIU QUE A REGIÃO PODE SER INDEPENDENTE
Madeira tem condições para viver como país
JORNAL da MADEIRA — A República de Malta é um dos novos países da União Europeia. Tem uma superfície inferior à da Madeira e uma economia muito dependente do turismo. Será que a Madeira poderia também ser independente?
Alberto João Jardim — Não foi por acaso que mandámos fazer, há pouco tempo, um estudo económico-financeiro sobre as possibilidades de a Madeira viver como país. O estudo concluiu que a Madeira poderia viver independente muito melhor do que muitos países que há por esse mundo fora.
JM — A que escala poderia a Madeira ficar?
AJJ — Íamos ficar à escala do Chipre, que é um país com um bom nível de vida. A Madeira não seria um país miserável. Contudo, entendo que isso seria um erro. Eu e todos os madeirenses somos portugueses, sentimo-nos no mesmo projecto pátrio, de unidade nacional.
JM — Que razões podiam levar a Madeira a defender a independência?
AJJ — A hipótese da independência só se põe quando, não por palavras mas por actos, percebermos que Portugal não nos quer no seu seio de unidade nacional. Nós queremos continuar a ser portugueses. Portanto, não pomos o problema. Porém, estamos atentos e preparados para se algum dia o Estado central nos hostilizar.
Separatismo sem projecto
JM — O separatismo não tem projecto, nem nunca teve?
AJJ — Repare, o projecto da Madeira é um projecto português, é a realização de Portugal no Atlântico. Os responsáveis pelos destinos da Madeira não têm nem querem ter qualquer projecto de separatismo. Se os há é em Lisboa. A independência será um passo em frente se o Estado português nos expulsar ou então eliminar a autonomia política da Região. (...)»
in Jornal da Madeira, 29/Abril/2004
Ontem lutámos por causa da terra. Hoje lutamos por causa do petróleo. Amanhã, lutaremos por causa da água. A Bacia do Rio Níger providencia uma visão útil do que poderá acontecer no futuro – nove países da África Ocidental se juntam para discutir como gerir e partilhar seus recursos hídricos.
Esta área árida da África Ocidental, onde nove países dependem do Rio Níger pela sua sobrevivência, já testemunhou os problemas potenciais causados pela falta de água.
Num passado não muito distante, houve conflitos armados por causa do fornecimento da água, demonstrando que em casos extremos, o futuro poderá ver guerras em grande escala por causa da gestão de recursos hídricos.
Uma falta de água soletra uma palavra sinistra: morte. as comunidades que ganham a vida por pastoreio, da pesca ou da agricultura desaparecem, quando os leitos secos dos rios se tornam em poeira e o deserto avança.
A má gestão dos recursos soletra a mesma mensagem. Uma acumulação de lodo causa bloqueios e mudanças de direcção da caudal, uma falta de atenção pode ver os cursos de água estrangulados por plantas aquáticas flutuantes e uma falta de responsabilidade pode criar problemas massivas de poluição, com a descarga de químicos ou resíduos não tratados no rio, causando a devastação por centenas ou milhares de quilómetros a jusante.
É para discutir estes problemas e para adoptar medidas comuns que nove países se juntaram na Autoridade da Bacia do Rio Níger, sob os auspícios da ONU: Benin, Burkina Faso, Camarões, Chade, Guiné, Costa de Marfim, Mali, Níger e Nigéria, que têm uma população conjunta de 100 milhões de pessoas.
Essa é um acto civilizado, esse é o que a humanidade pode esperar numa nova ordem mundial que reflecte a vinda dum novo milénio. Discussão, debate e diálogo, baseado num espírito de amizade e igualdade, sob a égide da ONU.
É pena que nem todos os países são suficientemente civilizados para abordar a gestão de crises desta maneira.
Timothy BANCROFT-HINCHEY
A Critical Software, empresa de Coimbra, viu premiada a sua excelência informática e recebeu a visita de representantes da NASA, com vista a aprofundar as relações já existentes. Um óptimo exemplo do know-how nacional, que neste caso se centra na robustez de software para missões espaciais.
Ambas as delegações estarão presentes em Lisboa para participar no SPICE 2004 (Software Process Improvement and Capability d’Etermination), um congresso na área de engenharia de software que se realiza no Centro de Congressos do Estoril, de 28 a 30 de Abril e que resulta de uma co–organização da Critical Software e do Spice User Group.
O Spice User Group é um centro internacional, cujo objectivo é também testar as metodologias no software, tal como avaliar o nível maturidade das empresas produtoras de software.
Miguel Rodrigues
«A esquerda devia era agradecer o facto de uma facção do PP não ter conseguido o seu desiderato. Por eles, os cartazes diriam: "Abril é Devolução". Porque as privatizações não chegaram. ZDQ »
«(...) NUESTROS COMPAÑEROS Y COMPAÑERAS DEL MUNICIPIO DE ZINACANTÁN, COMO TODOS LOS PUEBLOS ZAPATISTAS, SOLO LUCHAMOS POR NUESTROS DERECHOS, POR NUESTRA AUTONOMÍA, POR LIBERTAD Y POR JUSTICIA PARA TODOS.
LUCHAR POR ESTOS IDEALES NO DEBE SER UN DELITO, AUNQUE PARA LOS MALOS GOBIERNO Y CACIQUES SÍ ES UN DELITO PORQUE LES AFECTA SUS INTERESES Y SU AMBICIÓN DE PODER Y DINERO. (...)»
Realidade na sociedade portuguesa, foi apurado pelo Eurostat que existem no nosso país cerca de dois milhões de pobres, dos quais 200 mil passam fome, o que corresponde a um quinto da população. Esta informação não constitui uma mudança significativa desde 2001, altura do último estudo, apesar da instituição do rendimento mínimo, o que traz a certeza de que não está a ser feito tudo para ultrapassar este grave problema social.
Um melhor acompanhamento dos beneficiários, bem como um esforço suplementar para a formação profissional e o combate à exclusão social, são as principais metas que continuam por cumprir.
No país do Euro 2004, da Expo 98, dos submarinos, apesar de faltar o pão para alguns, sempre vai havendo circo para nos distrair a todos.
Honra seja feita a entidades como o Banco Alimentar Contra a Fome, com dez delegações a nível nacional e que mobiliza mais de dez mil voluntários. As suas acções nos supermercados e hipermercados são as mais visíveis, mas apenas uma parte do extenso trabalho. A luta contra o desperdício estende-se também a produtores, empresas, transportadores e seguradoras.
Cerca de 1056 instituições (em 2003), encheram as suas despensas nos bancos alimentares, ajudando 195 mil pessoas de norte a sul.
Miguel Rodrigues
Parabéns, Portugal. Parabéns por ter tido a coragem de fazer esta revolução, parabéns a todas as forças da esquerda em Portugal por manterem vivas as revindicações do 25 de Abril, parabéns por ter reconhecido o erro que foi a Guerra Colonial e por ser suficientemente grande para abraçar as ex-colónias como parceiros iguais na CPLP.
Há 30 anos, Portugal acordou do pesadelo em que estagnava, colocou em movimento o processo de libertação política dos povos africanos que foram esforçados a viver sob o regime que esmagava a liberdade de expressão, deu ao povo de Portugal e das ex-colónias uma folha de papel e uma caneta, para escreverem seu destino.
Parabéns, Portugal, por ter sabido assimilar 10% da sua população em poucos meses e parabéns por ter sabido fazer uma revolução sem derramar sangue.
Que mantenha viva a memória dos heróis que fizeram o 25 de Abril e que mantêm a sua chama viva por muitos mais anos.
As vozes da razão
Viva Zapatero e Maduro, os líderes dos governos da Espanha e de Honduras, que anunciaram o retiro dos seus tropas do Iraque, representando a vontade dos seus povos e rectificando o que estava mal. Estas decisões precisaram de grande coragem política, pois Washington não irá esquecer o facto destes dois países terem abandonado a sua coligação, mas Washington não entende o que quer dizer democracia.
Os povos da Espanha e de Honduras não queriam participar numa guerra ilegal e não quiseram ser associados com a chacina de milhares de civis. Muito bem Zapatero e Maduro.
Caos no Iraque
Washington é a Rainha das Mentiras. Mentiu ao seu povo e à comunidade internacional sobre a existência de Armas de Destruição Massiva no Iraque, mentiu sobre a existência dum programa nuclear activo, mentiu sobre a ligação de Bagdade ao Níger, na tentativa de obter urânio “yellowcake” para fazer armas nucleares, mentiu tantas vezes que cada vez que Washington disse algo, há que lembrar do rapaz que gritou lobo.
Uma semana depois da mulher de Saddam Hussein proclamar que o homem que saiu do buraco em Dezembro com as tamareiras carregadas com fruto maduro como pano de fundo (fenómeno que acontece em Agosto), não é o marido dela, agora Washington afirma que a situação no Iraque está a normalizar-se e que os incidentes que ocorrem são de pequena escala.
Quase 100 mortos e 400 feridos numa semana não é violência de pequena escala, é violência numa escala massiva, que não é visto em nenhum outro país, fruto da política agressiva de Washington que desestabilizou por completo este país.
Bush é um fracasso
George W. Bush, além de ser um assassino, um criminoso de guerra e um mentiroso descarado, é um fracasso. O homem que nem consegue comer uma bolacha sem ficar com um olho negro e um lábio cortado se vê confinado aos Estados Unidos da América (nem se atreve a sair dum avião na maioria dos países).
Se os norte-americanos consideram que esse homem é o melhor candidato por causa de oferecer maior garantia de segurança, estão rotundamente enganados. Pravda.Ru recebeu informações esta semana sobre a possível existência de aparelhos nucleares nos EUA, nas mãos de terroristas da Al Qaeda. Uma tentativa de falar com alguém dos serviços de segurança da Embaixada dos EUA resultou num pedido para telefonarmos à Embaixada britânica (também não estava disponível o oficial de serviço).
48 horas depois, ainda ninguém telefonou à Pravda.Ru. Grande segurança, essa.
Xanana em Portugal
Xanana Gusmão esteve esta semana em Portugal, semeando boa vontade e bem-estar, seu sorriso o espelho do coração deste guerreiro-poeta-político. Símbolo do amor que o povo de Timor-leste sente por Portugal e pelos portugueses, Xanana ocupou lugar de destaque nos média neste país que o recebeu como irmão, onde está hoje a comemorar o 30º aniversário do 25 de Abril na tribuna da elite política em Lisboa.
Há dez anos atrás, estava nas florestas de Timor-leste com uma arma na mão, lutando nos FALINTIL contra o invasor indonésio, tal como fazem os “terroristas” e “insurgentes” iraquianos. O resultado será igual e pelas mesmas razões.
No mundo de hoje, não há lugar para a opressão. O Bem vence o Mal sempre.
O 25 de Abril e Xanana Gusmão são testemunhos vivos desta realidade.
Timothy Bancroft-Hinchey
No dia um de Maio irão aderir à União Europeia dez novos países: Polónia, Hungria, República Checa, Eslováquia, Eslovénia, Estónia, Letónia, Lituânia, Malta e Chipre, ampliando para 25 o número total de membros. À espera de uma oportunidade para breve estão os candidatos Roménia, Bulgária e Turquia.
Os cidadãos do leste europeu necessitam de trabalhar, em média, 40 a 65 minutos para poder pagar um Big Mac, enquanto os alemães ou irlandeses, apenas precisam de quinze minutos para o mesmo efeito. A maioria da população que agora ingressa no «clube europeu» ganha menos de 500 euros mensais (o pior exemplo é o da Lituânia, com um salário mínimo bruto de 130 euros). Por aqui se toma pulso da realidade de duas Europas, e a todo o custo se deve evitar que existam também duas velocidades de desenvolvimento.
As excepções a este quadro são a Eslovénia e as ilhas mediterrânicas, Chipre e Malta, que estão ao mesmo nível de riqueza de Portugal e Grécia, actualmente os países mais pobres da UE. A Polónia é o maior dos países agora aderentes, com cerca de 38 milhões de habitantes, dos quais 2500 cidadãos estão ao serviço das suas forças armadas, destacados no Iraque.
Miguel Rodrigues
Mais uma viragem à esquerda num país europeu. Depois da Espanha, foi a vez da Áustria, nas suas eleições de ontem (25 de Abril), ter eleito pela primeira vez em 18 anos um candidato socialista moderado.
Heinz Fischer, de 65 anos, é o novo Presidente da República e venceu o ministro dos negócios estrangeiros, Ferrero-Waldner que era apoiado pelo líder da extrema-direita austríaca, Joerg Haider. O candidato da direita e extrema-direita coligada, conservará o seu lugar no ministério, mas esta vitória não deixa de ser um aviso ao governo pela forma ineficiente como conduz o país.
O último presidente socialista foi Rudolf Kirchschlaeger, e terminou o mandato em 1986.
Miguel Rodrigues
Há precisamente 30 anos, Portugal acordou do pesadelo em que estagnava, da saloiice institucional que queria fazer do país e do povo uma aldeiazinha grande com horizontes limitados.
Muitos são os portugueses que chamam este dia o Dia da Desgraça, principalmente aqueles que perderam seus bens na África, onde o processo de descolonização foi, e é, muito criticado. Culpam o 25 de Abril por isso.
Muitos são os portugueses que fazem comparações negativas com o antes e depois do 25 de Abril, que ficou um ponto de referência em termos de contar o tempo. Lisboa é mais insegura depois, não havia drogas antes, havia mais respeito antes e a juventude é mais insolente depois.
Verdade, inegavelmente mas é injusto culpar o 25 de Abril por tudo. Todos os países são mais ou menos inseguros, dependendo do ciclo sócio-económico que está a passar. No século XIX, em Londres, os homens usavam coleiras de ferro para os proteger contra tentativas de os degolar.
Não foi o 25 de Abril que trouxe as drogas para Lisboa, foram os homens e na abertura da sociedade, o país ficou aberto a correntes vindas de fora. O 25 de Abril fez acordar Portugal e a sociedade portuguesa, trouxe novas oportunidades e igualdade de direitos e pôs um ponto final no mal que foi a Guerra Colonial, que ninguém queria.
Nem estão completamente certas aquelas pessoas que acreditam que o 25 de Abril foi traído. Os dois principais objectivos – a democratização política do país e o fim da Guerra Colonial – foram realizados. Hoje, Portugal tem no Parlamento uma representação fiel da vontade política do seu povo há dois anos (a última eleição). Hoje, Portugal vive ao lado dos seus irmãos na CPLP, comunidade que cada vez mais se une num espírito de cooperação mútua.
Relativamente à descolonização, há que lembrar que Portugal não é uma ilha e que havia forças muito superiores às de Portugal operando contra Lisboa – os recursos de Angola, principalmente, e a posição geo-estratégica das restantes colónias fez com que o Mundo Português de Salazar e Marcelo Caetano fosse um laboratório para os protagonistas da Guerra Fria (Washington, que tentava dominar os recursos do mundo e ainda tenta, e a União Soviética, que tentava contra-balançar).
O quê é que Portugal podia fazer? Tinha de acabar com a guerra, e acabou. Tinha de assimilar cerca de dez por cento da sua população, de dia para a noite, e assimilou, com grande sucesso.
Antes do 25 de Abril, uma mulher não podia viajar para fora sem a autorização do marido, as pessoas não podiam discutir a política em conjunto, as pessoas não tinham a liberdade de ler o que queriam (o pai de Jorge Sampaio incorreu um risco sério em trazer as Obras de Lenine para ele ler), as pessoas não tinham a liberdade de serem elas próprias.
Talvez fosse este o maior feito do 25 de Abril – criou um espaço em que as pessoas podiam crescer como queriam, onde podiam desenvolver a sua sociedade, feito por elas e não pelo regime. Deu ao povo português uma folha branca e uma caneta.
"De acordo com Jorge Sampaio, as dificuldades de Portugal derivam "de inegáveis dificuldades estruturais e de uma conjuntura económica europeia adversa, mas também de opções sobre o investimento público e a gestão de expectativas" — palavras que deixaram as bancadas da maioria PSD/CDS-PP em silêncio.
Para o Chefe de Estado, "a crise orçamental não está superada" em Portugal e, mais grave do que o défice público, continua a existir um "défice estrutural de produtividade e de competitividade".
"Parece-me óbvio que Portugal se deixou atrasar nas reformas que mudam a estrutura e as condições de funcionamento da economia", sendo por isso "necessário recuperar o tempo perdido, efectuando as reformas estruturais que se impõem".
Como soluções, Jorge Sampaio apelou à necessidade de Portugal voltar a uma trajectória de convergência real com a média europeia e a apostar na qualificação e na educação, defendendo um modelo económico mais igualitário na distribuição de riqueza e com protecção social.
"Com preocupante regularidade, aumenta o volume dos desempregados de longa duração, agravando as situações de carência de recursos para muitas famílias, e conduzindo-as a limiares de exclusão, onde as palavras liberdade e cidadania poderão deixar de fazer sentido", alertou o Presidente da República, para quem a luta contra a pobreza e a exclusão "é uma questão de dignidade social e uma obrigação moral indiscutível".
Neste capítulo, Jorge Sampaio deixou um recado ao Governo: "qualquer que seja o caminho para o necessário modelo de desenvolvimento alternativo, é fundamental que não se recue, precipitadamente, no domínio das políticas sociais preventivas e de emergência", disse. (...)
Sobre os 30 anos de democracia em Portugal, o Chefe de Estado reconheceu a existência de progressos, mas sustentou que o país "ainda não recuperou inteiramente" de algumas marcas deixadas pelo Estado Novo.
Segundo Sampaio, Portugal ainda não venceu totalmente "a apatia cívica, a desconfiança nas instituições e na política, a falta de espírito crítico [substituída pela maledicência inconsequente e avulsa], a desresponsabilização, a impunidade, a opacidade, a intolerância e o desrespeito pela diversidade".
Fenómenos que Sampaio disse perpetuarem-se num quadro de "nostalgia do unanimimismo, e da uniformidade, de confusão entre estabilidade e imobilismo e de subserviência ao poder".
Ainda assim, o Presidente deixou um balanço positivo dos 30 anos de democracia, "um dos períodos mais notáveis da história portuguesa": "O país que somos hoje está certamente muito longe do país que desejamos ser amanhã, mas está ainda mais longe do país bloqueado e sem futuro que éramos ontem, em 1974".
in Público, 25/Abril/2004
"O primeiro-ministro, Durão Barroso, e o ministro da Defesa, Paulo Portas, foram recebidos com assobios quando chegaram à tribuna para assistir à parada militar que assinala hoje os 30 anos do 25 de Abril.
O Presidente da República, Jorge Sampaio, acompanhado pelo presidente de Timor-Leste, Xanana Gusmão, foi aplaudido pelos populares que assistem à parada e que também receberam com palmas o presidente da Assembleia da República, Mota Amaral.
Membros do Governo, chefes militares e altos representantes do Estado assistem ao desfile militar na Avenida da Liberdade, em Lisboa. Durante tarde, pela mesma avenida passou uma manifestação popular [com milhares de pessoas]. "
in Lusa, 25/Abril/2004
Em boa verdade não vivi o 25 de Abril, pois ainda não tinha nascido e os meus pais ainda não tinham casado.
A minha mãe, aluna finalista de Línguas Românicas em Coimbra, viveu a revolução mais intensamente no meio estudantil, na caça aos bufos e no saneamento de professores e funcionários. Havia no dia 25 a informação de que estava em marcha «uma revolução em Lisboa», mas muita apreensão por não se saber se era de direita ou esquerda. Interessante como nos dias seguintes se desobriram algumas pessoas, supostos amigos, que eram quem fazia relatórios para a PIDE (na altura já DGS). Agora se tornava tão claro porque é que depois de algumas «conversas» se acordava, no dia seguinte, com uma prisão ou uma rusga da polícia política. O meu avô ainda esteve a braços com uma, em busca de livros subversivos. Felizmente não chegaram a um canto do sótão!
O meu pai, que deixara a tropa há dois anos, trabalhava na revisão durante a tarde na «Época» e à noite n'A Capital, tendo no dia 25 de Abril participado na feitura de 10 edições! Os militares não ocuparam estas instalações, mas a liberdade de imprensa fez-se sentir desde logo, com a edição planeada para sair, visada pela censura, a ficar pelo caminho...
No dia 30 de Abril haveria de estar no aeroporto à procura de armas, mas isso são histórias mais obscuras.
No Verão quente de 1975, altura de grande tensão, já estavam os meus pais casados e andava eu a dar murros e pontapés na barriga da minha mãe e posso dizer que vivi um pouco de toda esta agitação. Bébé em tenra idade, estive no levantamento de Rio Maior, em Novembro, no limiar da quase guerra civil, onde fiquei a saber que «se em Lisboa querem comida, então façam omeletes de parafusos!»
Como em todos os episódios da vida de uma pessoa e de um país, existiram coisas boas, coisas menos boas e coisas más, mas o mais importante foi o golpe de estado ter acontecido, porque provocou a revolução com a adesão maciça do Povo. Conquistou-se a Liberdade, Democracia, Justiça, Igualdade, e um sorriso imenso, numa luta que ainda não terminou e deve ser, ainda hoje, encorajada.
Miguel Rodrigues
Às 04h26 o locutor Joaquim Furtado fazia a leitura do primeiro comunicado do MFA, aos microfones do Rádio Clube Português:
«Aqui posto de comando do Movimento das Forças Armadas.
As Forças Armadas portuguesas apelam para todos os habitantes da cidade de Lisboa no sentido de recolherem a suas casas, nas quais se devem conservar com a máxima calma. Esperamos sinceramente que a gravidade da hora que vivemos não seja tristemente assinalada por qualquer acidente pessoal, para o que apelamos para o bom senso dos comandos das forças militarizadas no sentido de serem evitados quaisquer confrontos com as Forças Armadas. Tal confronto, além de desnecessário, só poderia conduzir a sérios prejuízos individuais que enlutariam e criariam divisões entre os portugueses, o que há que evitar a todo o custo.
Não obstante a expressa preocupação de não fazer correr a mínima gota de sangue de qualquer português, apelamos para o espírito cívico e profissional da classe médica, esperando a sua acorrência aos hospitais, a fim de prestar eventual colaboração, que se deseja, sinceramente, desnecessária.»
Esta música constituiu a senha a nível nacional, e foi colocada no ar no programa Limite, tendo sido previamente gravado por Carlos Albino e Manuel Tomás em bobine, e transmitido pela Rádio Renascença, à meia noite, vinte minutos e dezanove segundos, e significou o arranque sincronizado e irreversível das forças do MFA (Movimento das Forças Armadas).
A cronologia completa dos aconcimentos pode ser consultada aqui.
Estava dado o arranque da terceira grande revolução do sec. XX português (as outras duas foram a implantação da República em 1910 e o golpe ditatorial de 1926), que iria, sem qualquer dúvida, influenciar mais tarde a viragem democrática da Espanha e da Grécia.
Grândola, vila morena
Terra da fraternidade
O povo é quem mais ordena
Dentro de ti, ó cidade
Dentro de ti, ó cidade
O povo é quem mais ordena
Terra da fraternidade
Grândola, vila morena
Em cada esquina um amigo
Em cada rosto igualdade
Grândola, vila morena
Terra da fraternidade
Terra da fraternidade
Grândola, vila morena
Em cada rosto igualdade
O povo é quem mais ordena
À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade
Jurei ter por companheira
Grândola a tua vontade
Letra e música: José Afonso
Às 22h55 do dia 24 de Abril ouve-se «E Depois do Adeus» nos Emissores Associados de Lisboa, colocada por João Paulo Diniz a partir dos estúdios do Rádio Clube Português, música que vencera o Festival da Eurovisão e era a primeira senha para que as forças revoltosas saíssem dos quartéis.
Quis saber quem sou
O que faço aqui
Quem me abandonou
De quem me esqueci
Perguntei por mim
Quis saber de nós
Mas o mar
Não me traz
Tua voz.
Em silêncio, amor
Em tristeza e fim
Eu te sinto, em flor
Eu te sofro, em mim
Eu te lembro, assim
Partir é morrer
Como amar
É ganhar
E perder
Tu vieste em flor
Eu te desfolhei
Tu te deste em amor
Eu nada te dei
Em teu corpo, amor
Eu adormeci
Morri nele
E ao morrer
Renasci
E depois do amor
E depois de nós
O dizer adeus
O ficarmos sós
Teu lugar a mais
Tua ausência em mim
Tua paz
Que perdi
Minha dor que aprendi
De novo vieste em flor
Te desfolhei...
E depois do amor
E depois de nós
O adeus
O ficarmos sós
Paulo de Carvalho
Música: José Calvário
Letra: José Niza
A 25 de Abril de 1974, o Movimento das Forças Armadas, coroando a longa resistência do povo português e interpretando os seus sentimentos profundos, derrubou o regime fascista.
Libertar Portugal da ditadura, da opressão e do colonialismo representou uma transformação revolucionária e o início de uma viragem histórica da sociedade portuguesa.
A Revolução restituiu aos Portugueses os direitos e liberdades fundamentais. No exercício destes direitos e liberdades, os legítimos representantes do povo reúnem-se para elaborar uma Constituição que corresponde às aspirações do país.
A Assembleia Constituinte afirma a decisão do povo português de defender a independência nacional, de garantir os direitos fundamentais dos cidadãos, de estabelecer os princípios basilares da democracia, de assegurar o primado do Estado de Direito democrático e de abrir caminho para uma sociedade socialista, no respeito da vontade do povo português, tendo em vista a construção de um país mais livre, mais justo e mais fraterno.
in Preâmbulo da Constituição da República Portuguesa
“Minutos antes de a sexta revisão constitucional ser aprovada na Assembleia da República, com os votos a favor da maioria e do PS e os votos contra do PCP, BE e PEV, o PSD avisava que não desistirá de lutar por uma revisão profunda da Constituição e por fazer valer as propostas que ficaram pelo caminho. «Não perderemos tempo em voltar a insistir no que hoje [ontem] não foi possível concretizar».(...)
«Amanhã é dia de começar a lutar» por uma nova revisão que retire à Constituição a sua carga ideológica. A eliminação do preâmbulo da Lei Fundamental e a alteração das normas que reflectem a carga ideológica saída da revolução de Abril foram duas das propostas apresentadas pela maioria, que acabaram por ser travadas pelo PS. Mas a maioria promete voltar à carga. «Não queremos reescrever a História, mas não se pode ser indiferente à evolução. A Constituição é para unir e nenhuma marca ideológica une»(...)
Também Diogo Feyo, do CDS/PP, disse estar satisfeito «mas inconformado» com a revisão constitucional, alertando que «ainda há caminho a trilhar».(...)
Apesar de o aprofundamento das autonomias regionais ter sido o ponto forte desta revisão, foi a sobreposição do direito comunitário à Constituição que levantou maior contestação. Sobretudo do PCP, BE e PEV, que votaram contra a revisão por causa do que disseram ser «a mutilação da soberania nacional». Um grupo de deputados do PS (Jaime Gama, Alberto Costa e Medeiros Ferreira, entre outros) apresentou uma declaração de voto, manifestando reservas a esta alteração.
Desta revisão sai ainda o princípio da limitação dos mandatos de cargos executivos, a proibição de discriminação em razão da orientação sexual (que suscitou reservas de alguns deputados do PSD), o reforço dos poderes do Parlamento no acompanhamento de missões das forças de segurança no estrangeiro e a criação de uma nova entidade reguladora da comunicação social.”
Inês David Bastos
in Diário de Notícias, 24/Abril/2004
De inegável pertinência, transcrevo o artigo do Prof. Vital Moreira, que recolhi no Blog Causa Nossa
Revisão constitucional
«As disposições dos tratados que regem a União Europeia e as normas emanadas das suas instituições, no exercício das respectivas competências, são aplicáveis na ordem interna, nos termos definidos pelo direito da União, com respeito pelos princípios fundamentais do Estado de direito democrático».
Esta é uma das normas introduzidas na CRP pela revisão constitucional “blitz” que acaba de ser debatida e aprovada na AR. Trata-se porventura da mais importante alteração da Constituição desde a sua aprovação em 1976. A partir de agora a CRP deixa de ser a Lei suprema do País no sentido tradicional do termo, visto que o direito comunitário, a começar pela futura Constituição Europeia, passa a prevalecer sobre ela.
Pode não se contestar a solução em si mesma, que é imposta pela própria lógica da construção supranacional da UE, e que desde há muito era sustentada pela jurisprudência e pela doutrina comunitárias. Sem essa cláusula de “autoderrogação” constitucional seria impossível ratificar a Constituição Europeia, a qual verbaliza expressamente o princípio da supremacia do direito comunitário sobre o direito interno, sem excluir as constituições nacionais. O que é menos curial, porém, é o procedimento expedito que permitiu aprovar uma alteração tão importante da Constituição de maneira tão célere, à margem dos requisitos procedimentais de uma “democracia deliberativa”.
Inserido por VM 23.4.04"
Não resisti a transcrever este artigo que recolhi no blog da Grande Loja do Queijo Limiano.
Aqui vai na íntegra:
“O simpático e erudito Dr. Pedro Roseta, que usa o título de Ministro da Cultura, é como pedra que não rola: cria musgo.
Na área do património cultural, o Ministro parece estar a treinar para homem-estátua. A Lei do Património Cultural (LPC), que entrou em vigor em Novembro de 2001, continua a não passar de um conjunto de boas intenções, por carecer da regulamentação que deveria ter sido aprovada no prazo de um ano. A fusão do IPA com o IPPAR, anunciada em Maio de 2002, debaixo de forte polémica, continua por concretizar. Já se perdeu a conta ao número de vezes que o MC adiantou publicamente datas para a consumação desta fusão, todas sucessivamente adiadas para o trimestre seguinte, a pretextos vários.
Quando muitos já vaticinavam que o Ministro teria arrepiado caminho, por ter descoberto a confusão em que se ia meter, veio Roseta declarar ao Público de 20 de Abril que: "a fusão do IPA e do Ippar está na lei e vai ser cumprida. O como e o quando é que estão a ser estudados". Ou seja, dois anos depois, o MC continua a estudar um dossier sobre o qual tinha tantas certezas e que constituiu uma das suas primeiras iniciativas políticas. Para além do carácter recorrente, tal estudo aparece envolto em mistério. Afirma o Público que “o Ministério da Cultura continua sem ouvir os especialistas e sem avançar quaisquer pormenores sobre a estrutura do futuro instituto”. O próprio Director do IPA diz desconhecer o teor do projecto em preparação. No site do MC nada consta.
"Não me parece que este seja um dos principais problemas do país", defende-se Roseta. Talvez não seja, mas será certamente um dos principais problemas a cargo de um Ministro da Cultura que já cumpriu metade da legislatura.
Curiosa noção das responsabilidades políticas!
À espera da anunciada fusão, os institutos – em especial o mais frágil, o IPA – estão compreensivelmente à deriva. Com indefinição de políticas e de lideranças, sem planeamento a médio e longo prazo, afectados por cortes orçamentais cegos, deixam de cumprir até as obrigações mais básicas que a Lei lhes impõe.
“Constitui particular dever do Estado e das Regiões Autónomas aprovar os planos anuais de trabalhos arqueológicos”, dispõe o n. 2 do artº. 76º. da LPC. “Anualmente, e na sequência de publicitação adequada nos órgãos de comunicação social, poderão ser apresentadas candidaturas à obtenção de financiamento no âmbito do Plano Nacional de Trabalhos Arqueológicos”, garante o nº. 3 do artº. 4º. do Regulamento de Trabalhos Arqueológicos aprovado pelo D.-L. n.º 270/99. A estes comandos legais dá o IPA pós – Roseta o seguinte peculiar cumprimento: “com as restrições orçamentais conhecidas, não será viável proceder à abertura de novo concurso para financiamento do PNTA no corrente ano económico”. Porém, em paralelo, o MC continua alegremente a gastar dinheiros públicos em múltiplas acções que – independentemente dos seus méritos – não correspondem a particulares imposições legais.
Curiosa aplicação do princípio da legalidade!
Igualmente curiosa é a situação relatada no Público de 8 de Abril (p. 41 – link não disponível). Nomeado em 2002, em regime de substituição, o actual Director do IPA só poderia ter exercido funções por um período não superior a seis meses, improrrogável. Não obstante, mantém-se em funções, na mesma situação, face ao arrastamento da reorganização institucional do sector. O gabinete do MC diz que a regularização do caso está em curso, acrescentando, segundo o mesmo Público, que “é possível a nomeação com efeitos retroactivos que ratifica os actos praticados”.
Não poderá ser negado o carácter fortemente original desta gestão por omissão do Ministério da Cultura, associada a uma reconstrução do passado, afinal tão próxima da prática arqueológica.
Dentro da mesma ordem de ideias, talvez seja chegado o momento de Durão Barroso recorrer ao empossamento, quiçá também retroactivo, de um novo Ministro da Cultura, sob pena de o Palácio da Ajuda ficar oculto debaixo de um espesso manto de musgo...
Publicado por Gomez às 23:05 ”
Vivemos num mundo onde precisamos de nos esconder para fazer amor, enquanto que a violência é praticada em plena luz do dia...
John Lennon
Não é lisonjeando o mau gosto e as péssimas ideias das maiorias, indo atrás delas, tomando por guia a ignorância e a vulgaridade, que se hão-de produzir as ideias, as ciências, as crenças, os sentimentos de que a humanidade contemporânea precisa.
Antero de Quental
Na Guerra do Vietname a chegada dos mortos embaraçava o aparelho governamental americano, pelo que desde aí os Presidentes ficaram receosos do impacto desse momento junto do povo.
Bush, que ainda não assistiu a nenhuma cerimónia em honra dos soldados mortos, numa medida inédita, baniu totalmente a cobertura televisiva e fotográfica da chegada das urnas, cobertas com a bandeira, aos Estados Unidos.
A manipulação dos factos do que realmente está a acontecer no Iraque chegou a um novo patamar. Em vésperas de eleições, a admnistração Bush apenas deixa passar a informação que quer, como quer. Algumas das imagens proibidas pelo Presidente americano podem ser encontradas em thememoryhole.org/war/coffin_photos/ (devido ao grande número de acessos é provável que o servidor esteja muito lento).
No sítio do Departamento de Defesa norte-americano (www.dod.mil/news/) é possível encontrar os relatórios que indicam o número de soldados feridos e mortos em diversas missões.
Pode-se verificar, no relatório de hoje, que existiram até agora 709 mortos e 3864 feridos no Iraque, e 80 mortos no Afeganistão. Interessante que não existem dados sobre feridos que tenham morrido posteriormente, ou sobre os estropiados (e consequentemente com a sua vida drasticamente alterada, para não dizer destruída), pelo que me leva a crer que os hospitais militares americanos, além de serem os melhores do mundo, são também 100% eficientes.
A guerra é injusta, passará a decorrer atrás de cortinas, tentando ocultar um beco sem saída que toma proporções ainda mais monstruosas dia após dia. Este é o mentecapto que o Governo do primeiro-ministro Durão Barroso apoia.
Miguel Rodrigues
"Não estamos a transformar os consumidores em cobaias! Estamos só a dar-lhes a oportunidade de experimentar uma coisa absolutamente nova, ainda não muito testada, mas quase de certeza segura! Bem, pelo menos esperamos nós. De qualquer forma está escrito no rótulo que é modificado genéticamente, se o consumidor compra e não sabe o que é... azar!"
Patrão duma qualquer empresa produtora de OMGs
"Com estes dois novos submarinos Portugal vai passar a ser uma super-potência atlântica ou mesmo mundial e nunca haverão ataques terroristas em Portugal e o tráfico de droga cessará. Além disso, a União Sovi... perdão... além disso, seremos uma peça super importante na NATO".
Pitbull castrado da Defesa
"Apoiamos a política do nosso amigo Sharon. Porque não? Os muçulmanos islamitas também não querem colonizar o mundo com os seus ataques terroristas? Não podem ser egoístas..."
Bush, o mentecapto americano
"Isto parece uma campanha eleitoral! É pena é não poder sair nem das instalações da PJ, nem do Tribunal."
Valentão Louro, senhor do Apito
"Concorrência? Qual concorrência? Isso acabou quando comprámos a AdTranz. A Bombardier tinha de fechar em Portugal porque não existe produção... mmmm... Metro do Porto? Metro do Mondego? Metro da Margem Sul? Comboios de Alta Velocidade? Pois... mas temos mais fábricas, sabiam?"
Chico-esperto da Bombardier
"E a nós? Por favor, quem nos defende do ministro?"
Polícia em manifestação na Pç do Comércio
Miguel Rodrigues
“Todos os alimentos para consumo humano e animal que, na sua composição, incluam ingredientes transgénicos vão ter de informar o consumidor dessa presença. A lei comunitária entra em vigor a partir deste fim-de-semana mas isso não quer dizer que, depois de segunda-feira, os rótulos já estejam todos actualizados. É que todos os bens cujo processo produtivo se tenha iniciado antes do próximo dia 18 não são obrigados a cumprir as novas normas. Daqui para a frente, já não haverá excepções. (...)
O consumidor tem o lugar central nestas leis. "O que está em questão não é tanto a segurança alimentar mas mais o direito do consumidor em estar informado, porque tudo o que até agora tem sido avaliado em matéria de OGM tem indicado que estes são seguros", afirmou Lurdes Camilo, da Direcção-Geral de Fiscalização e Controlo da Qualidade Alimentar (DGFCQA). (...)
"Temos de ter grande confiança nos fornecedores", explica Jaime Piçarra, da Associação Portuguesa dos Industriais de Alimentos Compostos para Animais (IACA). Ou seja, o produtor tem de acreditar que o seu fornecedor está a dar-lhe todas as informações. Mas esta exigência esbarra nalguma resistência por parte de países como os Estados Unidos, que não consideram que se esteja perante um problema de segurança alimentar.
"Se os documentos não forem verdadeiros, como é que podemos garantir que não há transgénicos?", questiona Isabel Sarmento, da Federação das Indústrias Portuguesas Agro-Alimentares (FIPA). "É que, muitas vezes, não é possível detectar se há transgenes, por mais análises que se façam", acrescenta.”
in Público, 16/Abril/2004
***
“O agricultor canadiano Percy Schmeiser, de 72 anos, terá seu caso apreciado em primeira audiência na Suprema Tribunal do Canadá a 20 de janeiro, por conta de processo movido pela empresa multinacional Monsanto. Depois de cultivar canola por mais de 50 anos, Schmeiser foi surpreendido por uma notificação da empresa em 1998, acusando-o por infringir a lei de patentes, quando sua lavoura de canola foi contaminada por sementes transgénicas. (...)
O governo da província de Ontário e uma coligação internacional de ONGs pediram para ser ouvidos no processo. A decisão dos canadianos terá reflexos noutras partes do mundo.(...) Será a primeira vez no mundo que um Tribunal Supremo se pronuncia sobre engenharia genética em commodity agrícola versus o direito do agricultor convencional.
Em julgamentos anteriores noutras instâncias, decidiu-se que a produção de todos os campos da propriedade do agricultor, contaminados ou não, deveriam ir para a Monsanto, por conta da introdução na área da semente modificada através da tecnologia detida pela empresa. "A lei de patentes é completamente contra os direitos dos agricultores" denuncia Schmeiser. Ele já gastou cerca de 250 mil euros com o processo. "Usei o dinheiro da minha reforma, hipotequei a minha terra e a minha casa. Se eu perder o caso, perco tudo o que construí na minha vida inteira", afirma.
As sementes foram parar à plantação de Schmeiser carregadas por agentes como vento ou pássaros, a partir das propriedades dos vizinhos. Segundo o mesmo, os agricultores canadianos começaram a usar as sementes transgénicas porque acreditaram que seriam mais nutritivas, teriam melhor qualidade e menor necessidade de produtos químicos. No entanto, "depois de cerca de três anos, as sementes necessitavam cinco vezes mais de agrotóxicos, e a produção era 15% menor que a convencional, com metade da qualidade", comenta.
Para ele, as desvantagens dos transgénicos incluem ainda o contrato arbitrário que os produtores assinam com a Monsanto. "Um agricultor não pode usar a sua própria semente ano após ano; ele tem de a comprar, todos os anos, à Monsanto. Também deve comprar o herbicida Roundup Ready [o popular glifosato], à multinacional. E deve pagar à companhia cerca de 45 euros por hectare/ano como taxa de tecnologia".
Porém havia uma claúsula subordinando ainda mais os agricultores à empresa, que segundo Schmeiser permite que a Monsanto entre nos terrenos e confirme o que se está fazer.”
in Adital (Canadá), 15/Janeiro/2004
Os alimentos transgénicos são a nova coqueluche das empresas de biotecnologia, e com ela podem transformar o mercado agrícola e alimentar mundial. O The Guardian publicou em meados do ano passado um estudo que indicava a produção de beterraba transgénica como prejudicial ao meio ambiente e no caso do milho, estavam ainda a ser discutidos os resultados obtidos.
Uma das bandeiras destas novas empresas é a produção abundante, que serviria, principalmente nos países mais pobres, para acabar com a fome.
Mas não sejamos ingénuos. Neste mundo neoliberal, nada se dá de graça. As sementes que nascem deste novo tipo de agricultura são estéreis (patenteadas com o sugestivo nome “terminator”), o que implica a compra ano após ano de novas sementes ao produtor. Quanto à abundância (e à qualidade da mesma), continuam as dúvidas.
Nos Estados Unidos os alimentos transgénicos são tratados como alimentos convencionais (o que não são, porque sofrem manipulações genéticas, sendo introduzidos genes de - por exemplo - bactérias, vírus, insectos e outros animais), não são feitas análises profundas que analisem todos os potenciais riscos (consultar www.biointegrity.org), não são monitorizados no pós-comercialização (para averiguação de situações adversas ou de riscos previsíveis ou imprevisíveis), e não existe uma rotulagem clara e completa.
Os ganhos económicos foram analisados pela Universidade de Iowa (EUA), que concluiu que em 1999 a aplicação desses lucros (em 55%), ficaram na empresa produtora das sementes, enquanto apenas os outros 45% foram distribuídos aos milhares de agricultores. As empresas são, de longe, as grandes beneficiárias de todo o processo.
No livro "Seeds of deception" [Chelsea Green Publishing Company; Setembro/2003], de Jeffrey M. Smith, o autor indica que apenas 10 estudos sobre o uso de alimentos transgénicos em animais foram publicados, sendo que apenas dois são independentes. Um encontrou danos no sistema imunológico e em órgãos vitais, bem como uma condição potencialmente pré-cancerígena. E quando o cientista procurou alertar o público sobre isso, perdeu o emprego e foi silenciado com ameaças de processos judiciais. Outros dois estudos, da mesma forma, mostraram evidências de uma condição potencialmente pré-cancerígena. O autor menciona ainda que estudos não publicados revelam que cobaias alimentadas com transgénicos desenvolveram lesões estomacais e que 7 em 40 morreram no prazo de duas semanas.
Miguel Rodrigues
“Já antes desta incursão-relâmpago à exploração agrícola, Durão tinha passado pela central que regula toda a rede de regadio. Ali lhe foram explicadas as novas tecnologias que orientam todo o processo. «E quantos técnicos tem?», questionou o primeiro-ministro. A que obteve como resposta: «Um. Mas para o o ano será zero.» Durão ainda gracejou: «É o problema do desemprego!...» “
in Diário de Notícias, 21/Abril/2004
“Portugal tem pouco dinheiro e o pouco que tem será desperdiçado na compra de submarinos, tendo-nos pedido que justificássemos tal opção. Não o faremos.”
Comunicado da NATO
in Diário de Notícias, 21/Abril/2004
“Universidade [Clássica de Lisboa] em 381º lugar do "Ranking Académico das Universidades do Mundo 2003", realizado entre 2000 e 2003 pelo "Institute of Higher Education", no Japão.
"É para nós uma grande honra porque é a única entre 500", comenta António Vasconcelos Tavares, pró-reitor e professor catedrático de medicina dentária da Universidade de Lisboa.”
in Público, 21/Abril/2004
“Mordechai Vanunu, o homem que revelou ao mundo os segredos nucleares de Israel, foi hoje libertado da prisão de Shikma, Askhelon (sul de Israel), depois de 18 anos de reclusão.
No decorrer de uma conferência de imprensa improvisada à saída do cárcere, e apesar de várias tentativas dos agentes que o rodeavam para interromper as suas declarações, Vanunu afirmou-se "orgulhoso e contente" por ter revelado os segredos nucleares de Israel e disse que o Estado hebreu "não precisa de armamento nuclear".
in Público, 21/Abril/2004
“Durante o Estado Novo, quando editados, os livros iam à censura prévia, ou seja, eram lidos por uns senhores que decidiam sobre se era ou não conveniente ao regime que eles fossem lidos pela população. E, quando esses senhores decidiam que não, os livros eram proibidos. É precisamente sobre esses livros que, hoje ao fim da tarde, se inaugura uma exposição na Livraria Parlamentar da Assembleia da República.”
in Público, 21/Abril/2004
“PS, PCP e Bloco de Esquerda (BE) defendem uma gestão escolar democrática, da responsabilidade dos professores. Ao passo que a maioria PSD/CDS-PP quer uma gestão das escolas profissionalizada, com escolha dos dirigentes através de processo público e dependente de formação adequada. (...)
O Governo entende ainda criar três ciclos de ensino, cada um com seis anos de duração, a que chamará: infantil (o actual pré-escolar), básico (do 1º ao 6º ano) e secundário (do 7º ao 12º ano). PCP e BE manifestam-se contra e defendem a manutenção de um currículo unificado de nove anos. "Não é aceitável que o Governo pondere diminuir o tronco comum do currículo - que corresponde aos instrumentos e competências essenciais para a transformação da informação em conhecimento - no exacto momento em que a sociedade assenta crescentemente no saber", escreve o BE. (...)
Em comum os diplomas têm o facto de alargarem a actual escolaridade obrigatória de nove para 12 anos, seja ela cumprida nas escolas secundárias, seja através da formação profissional.”
in Público, 21/Abril/2004
«A Soiuz acoplou ao módulo russo Zaria e a nona tripulação - André Kuipers, holandês, Edward Michael Fincke, norte-americano, e Guennadi Padalka, russo - já entrou na ISS. Os dois últimos vão ficar na estação espacial durante os próximos seis meses e o holandês deverá regressar à Terra dentro de nove dias, juntamente com Michael Foale e Alexander Kaleri. Estes estão a bordo da ISS desde Outubro passado.
De acordo com a ESA (Agência Espacial Europeia), Padalka será o comandante da nona tripulação na ISS.
As naves de fabrico russo são o único meio para se chegar à estação espacial desde a suspensão dos voos norte-americanos do Space Shuttle, depois do desastre do Columbia em Fevereiro do ano passado.»
in Público, 21/Abril/2004
E os submarinos vêm mesmo. Não há volta a dar-lhe. Os jornais fazem manchete hoje sobre a recusa da NATO em considerar essencial a compra deste novo luxo da Marinha de Guerra portuguesa.
Podem dizer que é uma nova arma de combate ao terrorismo e ao tráfico, uma peça fundamental de dissuasão, uma medida importante no apetrechamento da Marinha... a NATO (por muito que se goste ou se deteste), considera um desperdício. E nisto estou de acordo. Mesmo equacionando as contrapartidas, são 770 milhões de euros. Um país que não é rico não se pode dar ao luxo de dispender sem mais nem menos. E ladra o pitbull castrado que temos na Defesa: dois submarinos para a mesa do canto, para os senhores de boné e fato branco... Isto não é defender os nossos interesses, nem os interesses dos portugueses. É deitar dinheiro fora. É fazer barquinhos com as notas de euro, metê-las na água e esperar que se afundem.
Este contrato de leasing assinado pelo ministro Paulo Portas é ao mesmo tempo um endividamento importante do qual os nossos netos ainda se vão lembrar, pois os seus impostos irão ainda pagá-lo. Este Governo é responsável por este uso leviano dos nossos impostos. Não há justiça nem racionalidade nestas opções faraónicas.
Não se pode compreender nem aceitar que em Portugal faltem infraestruturas educativas, médicas e de apoio social, não exista modernização do Estado (principalmente do aparelho da Justiça), uma economia subdesenvolvida, um crescimento científico pouco mais que medíocre, e se aposte como prioridade na compra de submarinos. As próprias Forças Armadas têm outros «pedidos» de maior necessidade.
Mas não. Dialogar com este Governo é como falar para o boneco. Qual o destino a dar aos nossos impostos, dos nossos filhos e dos nossos netos como medida reestruturante e de projecção para o nosso futuro?
- Comprar submarinos.
O futuro que merecemos não passa - infelizmente - a curto trecho pelo desarmamento, mas também não passa pelo armamento desnecessário. E passa ainda muito menos pela reeleição deste Governo energúmero, ignóbil e autista.
Miguel Rodrigues
“São dois os principais problemas de Portugal: os poucos pessimistas profissionais, que passam a vidam a contaminar o resto da população, e uma governação inadequada, ineficiente, ineficaz e fora de contacto com a realidade no país.
Que Portugal e os portugueses têm inegáveis qualidades, não hajam dúvidas. Não é por nada que Portugal é um país independente e a Catalunha, a Bretanha, a Escócia e a Bavária não são. Não é por nada que o português é a sétima língua mais falada no mundo, a frente do alemão, do francês e do italiano.
No entanto, estas qualidades precisam de ser cultivadas por quem foi eleito para liderar e dirigir o país. O que acontece é que nem agora, nem por muito tempo, Portugal tem tido líderes dignos do seu povo, capazes de liderar a nação, realizar os projectos que foram escolhidos para realizar.
O resultado é uma onda de pessimismo, no meio dum mar de desemprego, desinteresse e desorientação que serve de combustível para a economia emocional não funcionar, aquela economia que é tão importante quanto a economia das quotas de oferta e procura.
A consequência é uma retracção não só da economia mas também do psique da sociedade, com uma introversão patológica a manifestar-se no escrutínio colectivo do umbigo nacional, ou um pouco mais abaixo. A não-história da pedofilia, já uma psicose nacional, é um belíssimo exemplo de até onde pode chegar uma sociedade quando nem é orientada nem estimulada a pensar em horizontes mais saudáveis.
Há mais que um ano, a imprensa portuguesa regurgita a história do abuso sexual de meninos do orfanato/escola Casa Pia, apontando nomes sonantes da vida pública que nem têm lugar aqui, visto que até ser provado ao contrário, uma pessoa numa sociedade civilizada, é considerado inocente. Na busca de quem foi ou quem não foi, deu origem ao levantamento na praça pública duma lista substancial de nomes do mundo artístico, desportivo, e político, aos mais altos níveis.
Não é a causa do pessimismo em Portugal, mas espelho dele. A noção que “nós não prestamos, somos os coitadinhos da Europa e a alta sociedade é podre” se ouvia nos finais dos anos 70, desapareceu e com a não governação do primeiro ministro José Barroso, voltou. Está tangível, quanto mais para um estrangeiro que ama e estuda este país há 25 anos.
Outra manifestação deste pessimismo é a negatividade ao nível das conversas nos cafés (inaudíveis nos claustros de cristal onde pairam os governantes do país) acerca dum evento que a priori é a melhor hipótese que Portugal alguma vez tem tido para se projectar na comunidade internacional – o Euro 2004.
O Euro 2004 é o ponto desportivo mais alto na história quase milenar de Portugal. É um dos três mais vistos eventos televisivos no mundo e é uma excelente oportunidade de enterrar de vez a falácia que Portugal é uma província espanhola.
Mas o quê é que acontece? Enquanto o resto da Europa se prepara com entusiasmo para o Campeonato da Europa em Futebol, se ouve em Portugal por todo o lado que os estádios não estão preparados, ou que não são seguros, ou que os aeroportos não estão adequados ou que vai haver problemas com hooliganismo ou com terrorismo.
Disparate! Ou pior, uma vergonha, por quem perpetua este tipo de lixo, que se chame notícias por aí. Para começar, os estádios são tão prontos que já se joga futebol neles. Segundo, as normas de segurança têm de obedecer rigorosíssimas normas de controlo estipuladas pela inflexível UEFA. Terceiro, os aeroportos têm dos sistemas mais avançadas de controlo de tráfico aéreo, total e completamente integrados nos da União Europeia e mais, os adeptos não vão todos chegar no mesmo dia, nem todos de avião. Quarto, quando os bilhetes foram vendidos na Internet, foi consultado a base de dados proferido pelas forças policiais dos países presentes no Euro 2004. Quinto, Portugal é alguma vez um alvo para ataques terroristas, desde quando? Só se fossem as FP-25 de Abril.
Porém, onde estão as autoridades a explicarem a verdade, a estimular a população, a instilar o optimismo, não só para o Euro 2004 mas para galvanizar a economia, a liderar o país? Exactamente onde estiveram, estes ou outros, quando os interesses dos portugueses estavam a ser vendidos por um preço barato, o que levou gradualmente à situação actual em que uma família portuguesa gasta substancialmente mais do seu ordenado em necessidades básicas do que no resto da Europa.
Não se admite que num supermercado espanhol, se encontra exactamente os mesmos produtos bem mais baratos do que em Portugal, não se admite que no Reino Unido o cesto básico de alimentos custa bastante menos, quando se ganha cinco, seis ou sete vezes mais. Há duas semanas, vi três restaurantes no centro de Londres com a cartaz “Comam o que quiserem por £5.45” …9 Euros, ou um pouco menos.
Os portugueses gastam uma fatia tão grande do seu ordenado em mantimentos fundamentais que não há capital disponível para os serviços, restringindo a economia a um modelo básico e muito primário.
Se bem que Portugal é um país pequeno, também é a Bélgica, a Dinamarca, os Países Baixos, o Luxemburgo, a Suiça, a Irlanda. Estes países têm um plano de médio e longo prazo e nestes países ganham os lugares de destaque pessoas competentes e devidamente qualificadas e formadas.
Em Portugal, o plano é ganhar as próximas eleições, ponto final. O que acontece depois? Há uma onda laranja ou cor-de-rosa a varrer o país e ocupar todos os quadros altos e médios, seja em ministérios, em faculdades, em firmas, até em hospitais. O grande plano é, quanto muito, de quatro anos, o que explica a pequenez de pensamento e a falta de visão personalizada por uma ministra das finanças que trata a economia do país como se fosse uma dona de casa maníaca, que, munida com uma tesoura gigante, tenta transformar um lençol de cama de casal numa bata para uma boneca diminuta…corta, corta, corta.
O resultado disso tudo é o que se vê: desempregados à espera do fundo de desemprego durante largos meses, não semanas, sem receberem um tostão do governo que elegeram para os proteger.
Quão conveniente por isso que o país fala de pedófilos e não da economia, do emprego, da falta de poder de liderança deste “governo” PSD/PP, da ausência duma cariz democrático, ou social, ou popular, da ausência do contacto ou calor humano destes, que foram eleitos para proteger seus cidadãos. O que fizeram? Absolutamente nada. Lamentaram que o país era um caos, e se calaram. Então, onde estão as políticas de salvação?
Portugal está, e por muito tempo tem sido, liderado por uma argamassa de cinzentos incompetentes que venderam os interesses do país irresponsável e negligentemente para fora.
Portugal precisa de quem tenha o brio e a chama suficiente para incendiar a paixão do povo deste país lindo, desta pérola do Atlântico, de ajudá-lo a ir ao encontro dos seus sonhos, acreditar em si, redescobrir as suas consideráveis qualidades e colocar Portugal num lugar de destaque entre a comunidade internacional. O leitor pode apontar quem tenha feito isso nos últimos anos? O José Barroso está a fazê-lo?
Caso contrário, se não descobrir, e rapidamente, quem for competente para governar este país, os projectos audazes e brilhantes, que vão de mãos dadas com o espírito e a alma portuguesa, como por exemplo a EXPO 98 e a EURO 2004, ambos com uma gestão excelente e uma preparação de que poucos países poderiam gabar-se, perder-se-ão no mar de lamúria de assola Portugal.
Francamente, a paciência dos que tanto lutaram para fazer qualquer coisa deste rectângulo atlântico, começa a esgotar-se. Já que gostam de dizer que quem não está bem deve mudar-se, começa a ser uma excelente ideia. “
Timothy Bancroft-Hinchey
in Pravda, 09/Janeiro/2004
"Valentim Loureiro, detido hoje para interrogatório pela Polícia Judiciária por suspeitas de tráfico de influências na arbitragem e corrupção, diz que ainda "não sabe do que está indiciado" e que aguarda ser ouvido pela PJ e por um juiz." (...)
O "antigo presidente do Boavista, foi detido para interrogatório no âmbito da operação "Apito Dourado" da PJ, juntamente com mais 15 pessoas, no âmbito de uma investigação sobre a existência de tráfico de influências na arbitragem e falseamento de resultados desportivos. (...)
No decurso da complexa operação, a Polícia Judiciária procedeu à detenção de 16 (dezasseis) pessoas, dirigentes desportivos e árbitros, com idades compreendidas entre 31 e 67 anos, por haver fortes indícios da prática de crimes de falsificação de documentos, corrupção no fenómeno desportivo e tráfico de influências, tendo realizado cerca de 60 (sessenta) buscas em domicílios e organismos desportivos e autárquicos, para detecção e apreensão de material probatório.
A intervenção policial abrangeu uma área geográfica que vai desde Bragança a Setúbal, com especial incidência na zona Norte, implicando centena e meia de investigadores e a permanente disponibilidade funcional das autoridades judiciárias envolvidas."
in Público, 20/Abril/2004
O desporto em Portugal, os resultados fabricados, os sempre polémicos árbitros! Eis que estalou o verniz. O povo já dizia há muito, a alto e bom som, em todos os estádios: "Ladrões!", mas ninguém queria acreditar. Parece que a PJ decidiu investigar, e vamos lá a ver se é, ou não, verdade.
Imagino que agora muitos gritem: "ai que foi preso!". Eu contraponho com a música do Euro 2004, que tem muita verdade na sua letra: "menos ais! menos ais! menos ais!". O apuramento de factos e responsabilidades são urgentes, e fica um aviso principalmente ao Governo: os caminhos por andam os agentes da justiça hoje em dia são tortuosos ou melhor, como se diz nas aldeias, são caminhos de cabras. É urgente a construção de auto-estradas, ou corre-se o risco de todos os processos fiquem estrangulados num funil ou num caleidoscópio interminável.
Perscrevem sem terem chegado a um veredicto... presos preventivos, sem culpa formada, estabelecimentos prisionais sobrelotados, agressões e desrespeito dos direitos humanos... enfim... um descalabro com raízes no sec. XIX, em muitas das suas regras e dispendiosas práticas.
Abrindo os olhos vemos: isto não funciona. Muda-se! Volta-se à canção: "queremos mais! queremos mais! queremos mais!"
Desde 1974 que a percentagem do PIB para o sistema de Justiça é o mesmo, ou seja, reduzido, e o número de juízes, magistrados do ministério público e funcionários judiciais estável, quando o número de requisições dos seus serviços e de processos entrados não pára de crescer exponencialmente.
Claro que assim, e enquanto esta não for uma aposta forte, é difícil jogar!
Miguel Rodrigues
As loucas noites dos endinheirados. Ecstasy, cocaína, maconha [marijuana], champanhe, sexo grupal e muita arrogância. A reportagem da AOL Brasil acompanhou a Geração $, formada por filhos da alta sociedade paulista.
“A estudante Nicole, de 21 anos, estará daqui a algumas horas desmaiada no quarto 231 do Hospital Alvorada, na zona sul de São Paulo, com a sua calça Gucci suja de vômito e com um cateter na veia por meio do qual ela receberá altas quantidades de glicose para rebater o efeito do excesso de álcool.
Nicole mal irá se lembrar de, no espaço de horas, ter fumado dois cigarros de maconha, tomado um ecstasy na forma de coração e outro na forma das orelhas do Mickey Mouse, bebido uma garrafa inteira de champanhe Möet et Chandon e ter feito sexo com dois garotos que nunca viu na vida.
“Comigo tem que ser assim mesmo. Tudo aos extremos”, diz a garota, filha de um conhecido empresário do ramo têxtil. “Gosto de dar para um monte de caras, de misturar Prozac com champanhe, de cheirar cocaína até meu nariz sangrar. E não me importo com a sua opinião moralista típica da classe média. Tenho dinheiro suficiente para não me preocupar com você ou com mais ninguém. A minha felicidade está na minha conta bancária”, diz ela ao repórter enquanto se prepara para a balada.
Nicole faz parte de uma geração escancaradamente frívola e preconceituosa, formada por filhos de gente muito rica. É a “Geração $”, como eles gostam de se definir. Têm a vida inteira pela frente e nenhuma preocupação com assuntos que assombram outras pessoas, como falta de dinheiro ou necessidade de escolha de uma profissão para ganhar a vida. O que mais querem é curtir a juventude com o que acham que têm direito, incluindo drogas, sexo e uma boa dose de sentimento superioridade. Não há limites para eles. Escravos da estética, preocupam-se apenas com a próxima balada ou com a próxima compra. E a decisão mais importante que precisam tomar é qual dos cartões de crédito usar na hora de pagar a conta.
“Eu sou o tipo de pessoa que os pobres e a classe média odeiam porque posso torrar R$ 5 mil em um vestido para usar apenas uma vez e depois encostá-lo no armário”, diz Nicole ao repórter. “Não consigo ficar assistindo tevê em casa ou trabalhando em algum escritório estúpido na frente de um computador. Estou acima disso tudo. O dinheiro dos meus pais me possibilita curtir a vida sem preocupações e sem falsos moralismos”.
Enquanto fala da vida, Nicole manda o motorista do seu Mercedes preto se apressar. O relógio Armani no pulso, avaliado em R$ 2 mil, avisa que já passa das 23h e todos seus amigos devem estar esperando furiosos na frente da Disco – conhecida como a balada mais cara e restrita de São Paulo, no bairro de Vila Olímpia, zona Sul da cidade. É sábado à noite, e a noite de São Paulo nem imagina o que Nicole e seus endinheirados colegas vão aprontar.
“Demorei porque a besta da empregada esqueceu de passar a minha calça Gucci”, brinca a garota com os amigos ao descer do carro. “Definitivamente não dá para confiar em pessoas de cabelo pixaim.” Fernanda, filha de um banqueiro que mora no Rio de Janeiro e que mantém apartamento em São Paulo para temporadas, ri escandalosamente da observação da amiga Nicole. Além de compartilhar da visão do mundo, as duas são fisicamente parecidas. Morenas, baixinhas e superproduzidas.
“Empregada é uma droga mesmo”, diz a carioca de 20 anos, vestindo um modelito exclusivo assinado pelo estilista Alexandre Herchcovitch. “Todas são ignorantes. É por isso que elas têm de ganhar salário mínimo. É o valor da suas mediocridades.”
Fernanda está acompanhada de mais três meninas que aparentam ter a mesma idade) e dois garotos já mais velhos, de mais ou menos 25 anos. Todos têm pais ilustres – duas são filhas de empresários bem sucedidos, a outra é herdeira de um fazendeiro do interior paulista, o garoto loiro é filho de político.
Apenas um deles é uma incógnita. Seu nome é Carlos, e sua origem nunca foi colocada em discussão pelos colegas. “Um dia apareceu do nada em uma balada, dirigindo um Porshe Boxter e com muitos ecstasys no bolso. Não precisou explicar de onde vem para ser incluído na turma” explica Nicole.
A fila na frente da Disco quase dobra o quarteirão, mas uma nota R$ 50 na mão do segurança é o suficiente para que Nicole e seus amigos a furem. A entrada custa R$ 70 para homens e R$ 35 para mulheres, mas eles desembolsam mais R$ 100 cada um para ter direito a entrar no camarote. “Somos VIP’s, merecemos tratamento diferenciado”, diz Fernanda, enquanto abre uma garrafa de champanhe Möet et Chandon – a primeira de sete que serão consumidas na noitada, ao custo de R$ 120 cada.
No camarote, fica mais fácil para Carlos disfarçar uma carreira de cocaína que prepara em cima de uma mesinha de madeira. Os amigos brincam que ele tem o nariz nervoso, não consegue ficar um dia sequer longe do pó. Fernanda percebe o gesto e corre para filar um pouco da droga enquanto Nicole, do outro lado do camarote, amassa a roupa cuidadosamente escolhida com um rapaz mais velho que acabara de encontrar. Dias depois, procurada pela reportagem da AOL, a direção da Disco diria que os clientes pegos com drogas ilíticas no interior da casa são colocados para fora.
Depois de duas horas e R$ 890 gastos em bebidas, o grupo decide deixar a balada e procurar algum outro lugar para terminar a noite. Ou melhor, para começá-la de fato. “Vamos para a minha casa, hoje não tem ninguém lá”, sugere Fernanda. “Podemos comprar umas bebidas, ligar para uns amigos e fazer a festa lá mesmo. Com quantas pessoas será que eu vou transar hoje?”
A idéia de Fernanda até que foi comportada para os seus padrões. Da última vez que convidou os amigos para ir até a sua casa no Jardim Lusitânia - uma mansão na zona Sul de São Paulo com três salas, sete quartos e duas cozinhas –, ela pagou três prostitutas e dois garotos de programa para animar a reunião. De outra vez, fez uma vaquinha e comprou 100 gramas de cocaína. Tudo foi consumido na mesma noite. Os amigos da garota contam que ela, numa das baladas que deu, fez sexo com três amigos de infância na piscina, ao mesmo tempo, enquanto os vizinhos viam e ouviam tudo.
São quase três horas da madrugada e as Pajeros, Mercedes e BMW’s começam a se enfileirar na porta do número 482. Todos da turma são muito parecidos - os garotos vestem camisa de algum estilista famoso e caro, Herchcovitch, Sommer ou Haten, e calça jeans igualmente exclusiva, mas que pareça estar bem suja.
Já as meninas só usam preto, sempre de marca estrangeira, e não desgrudam de suas bolsas Louis Vuitton abarrotadas de ecstasys, maconha e, eventualmente, camisinhas.
A festinha particular começa a esquentar com uísque 12 anos misturado com energéticos. Fumaça de charuto e música eletrônica tomam conta do ambiente.
Para deixar as meninas mais “soltinhas”, os garotos preparam um drink especial com vodca, suco em pó light e comprimidos de ecstasy picados em pedacinhos microscópicos. Quando elas se derem conta, já estarão dançando coladinhas sem as blusas e dando beijos calientes umas nas outras para delírio dos caras.
Para a maioria delas, não faz a menor diferença saber se tomaram drogas misturadas à bebida porque a intenção é ficar doidas mesmo. “Essas garotas aí estão loucas para dar”, aponta Thomás, herdeiro de um médico famoso e amigo de longa data de Fernanda. “A única coisa que elas têm para fazer na vida é gastar o dinheiro da família. As mais novas, aliás, são as mais danadas. Eu, por exemplo, transei com muita menininha filha de ‘sei-lá-quem’ dentro do meu Civic ou em banheiros de baladas. Já ‘tracei’ muitas Lolitas Pilles por aí.
Thomás se refere à escritora francesa de 19 anos, que chocou o mundo ao descrever tudo o que se passa no mundinho milionário de Paris no seu livro de estréia, Hell. A tradução em português chegou às livrarias do Brasil no final de 2003 e vem ocupando lugar de destaque nas prateleiras das livrarias.
Nascida em berço de ouro e patricinha assumida, Lolita Pille passou boa parte de sua vida torrando o dinheiro dos pais nas lojas mais caras da capital francesa, desrespeitando regras de trânsito, enchendo a cara em hotéis de luxo e dançando até de manhã nas boates da moda.
Quando se cansou da farra, a garota escreveu 224 páginas denunciando a sua geração da forma mais crua possível. A galera endinheirada de Paris não perdoou.
Lolita Pille passou a ser barrada nas baladas VIP’s. "A 200 km/h pelas ruas de Paris, onde não é bom caminhar quando estamos no volante, misturamos álcool com cocaína e cocaína com ecstasy", escreve. "Eu sou um produto da Think Pink Generation. Minha crença: seja bela e consuma. Sou a musa do deus 'Aparência', sob o altar do qual eu queimo alegremente todo mês o equivalente ao seu salário".
Os relatos de Lolita poderiam muito bem ter sido escritos pela paulistana Nicole, pela amiga Fernanda, ou por qualquer uma das meninas que dançam e se beijam sem blusa na sala de estar da casa do bairro paulista de Jardim Lusitânia. “Entrei numa boate aos 14 anos e nunca mais sai”, confessa a escritora francesa em Hell, numa de suas muitas tiradas infanto-niilistas.
“De qualquer maneira, o que fazemos é vergonhoso. (...) E daí? É você quem paga a conta? Enfim, por hora está bom para mim. Minha única preocupação é o vestido que vou usar hoje...”
O uso de drogas na mansão de Fernanda é tão disseminado que até cinzas de cigarro chegam a ser confundidas com cocaína – e cheiradas sem que ninguém note a diferença. Num canto da sala, três caras fumam maconha e dividem uma pedra de ice (droga sintética, derivada da anfetamina, que parece um cubo de gelo) sem se importar com a presença de um estranho, o repórter da AOL. Noutro, duas adolescentes que não aparentam ter mais de 15 anos cheiram um vidro inteiro de B-25, ou cloreto de metileno, mais conhecido como cola de acrílico. E isso sem falar nas cápsulas de efedrina, de efeito estimulante, oferecidas como se fossem balas de goma.
Nicole, então, já usou e abusou de tudo nesta festa. E mesmo assim ela ainda quer mais. Em uma só tacada, engole dois comprimidos de ecstasy que estavam jogados em cima da bancada da cozinha – um rosa na forma de coração e outro azul na forma das orelhas do personagem Mickey Mouse. “Tô bem, tô bem, ainda tô sóbria”, balbucia, pouco antes de tropeçar em uma cadeira e cair estatelada no chão.
Dois caras levantam Nicole e carregam o seu corpo praticamente inanimado para um dos quartos da casa. É o quarto dos pais de Fernanda que a essa altura está chorando copiosamente no banheiro, em uma crise nervosa causada pela cocaína.
Nicole acorda e puxa os dois garotos desconhecidos para a cama, tira as calças e começa a fazer sexo sem se preocupar com os olhares curiosos dos que estão olhando pela porta aberta. O show não dura muito tempo – minutos depois, Nicole levanta correndo e tenta chegar até o banheiro. Em vão. Ela acaba vomitando em cima de um dos garotos, no piso de mármore. Vomita tanto que sai até bile.
“Sério que eu fiz tudo isso mesmo?”, perguntaria Nicole mais tarde, enquanto deixava o quarto 231 do Hospital Alvorada. O braço direito até dóia de tanta glicose que foi injetada na sua veia. Com olheiras enormes, sua amiga Fernanda só tinha forças para responder afirmativamente com a cabeça.
“Que saco! Eu sempre apago nos melhores momentos. Mas tudo bem, semana que vem tem mais. Fê, você tem certeza que não foi um plantonistazinho de merda que me atendeu? Porque esses residentes não sabem de nada, ganham uma merreca... Não posso ser atendida por um imbecil qualquer.”
Rodrigo Brancatelli
in AOL, 19/Março/2004
Em Portugal as compras de luxo não páram de aumentar... afinal a crise é só para alguns...
Tenho pena que a maioria dos Governos, se não todos, se façam desentendidos quando algumas resoluções aprovadas não trazem dinheiro rápido, grandes benefícios propagandísticos ou boas performances eleitorais. A maioria das decisões equacionam o seu endurance entre duas eleições, muito mais do que potenciam a construção do bem comum.
E isto é uma tónica que reflecte o estado das democracias actuais.
Na população grassam as desigualdades sociais, a diminuição do poder de compra (principalmente na classe média, já que a baixa o tem reduzido e alta não sente estas dores), o fomento do elitismo e da segregação através do culto do dinheiro.
Infelizmente isto é a nossa realidade.
Em 3 de Julho de 1973 iniciou-se em Helsínquia, capital filandesa (e terminou a 1 de Agosto de 1975), uma conferência das mais importantes após a II Guerra Mundial, que apesar do seu impulso para o pacifismo e uma nova ordem mundial mais centrada na pessoa e não nos interesses instalados, não conseguiu impôr-se na realização das suas conclusões. Nesta altura Portugal já se regia nas alegrias da democracia, restaurada em 1974.
Com um elevado número de países participantes, incluindo a UNESCO, esforçaram-se em definir um conjunto de princípios reguladores das relações internacionais, da segurança colectiva e do desenvolvimento de relações de cooperação entre estados.
Saliento os mais importantes:
• Igualdade soberana dos estados
• A não intervenção nas questões internas
• Resolução pacífica dos diferendos (e renúncia à ameaça)
• Respeito pelos direitos humanos e liberdades fundamentais
• Igualdade de direitos e autodeterminação dos povos
• Dissolução simultânea da NATO/OTAN e Pacto de Varsóvia
• Paragem da corrida aos armamentos
• Criação de zonas desnuclearizadas e desarmamento nuclear generalizado
• Redução geral de despesas militares, especialmente por parte das grandes potências
• Adopção de medidas preventivas do risco de eclosão acidental ou da provocação deliberada de incidentes militares e sua transformação em crises localizadas ou mesmo em guerras internacionais
• Estabelecimento de relações de cooperação
• Desenvolvimento dos sistemas de transportes e telecomunicações
Os Homens e Mulheres que amam a paz devem encetar esforços para pugnar por estas resoluções, que são tão actuais e pertinentes agora como o eram em 1975. Algumas coisas (poucas) mudaram. E mais na forma do que no conteúdo...
Miguel Rodrigues
"Trinta anos depois da euforia criada pelo 25 de Abril, há uma crise de confiança e de auto-estima. Dir-se-ia que os portugueses deixaram de acreditar em si mesmos e no futuro do seu país. E no entanto o 25 de Abril não foi só um programa de democratização, descolonização e desenvolvimento, foi também um projecto de justiça, em que os direitos políticos eram inseparáveis dos direitos sociais.
A imagem do 25 de Abril como “evolução”, que o governo anda a promover, traz consigo a ideia de apagar as lutas e as conquistas sem as quais não haveria sequer democracia em Portugal. Fala-se do progresso que ocorreu em Portugal nestas três décadas, mas dos bravos de Abril nem uma palavra. Mais do que nunca, é preciso lembrar o que deve ser lembrado e honrar quem deve ser honrado. Por isso recordo a memória luminosa e ímpar de Salgueiro Maia - um dos mais puros heróis militares portugueses de todos os tempos.
Espírito de missão e de serviço, desapego pessoal, coragem, excepcionais capacidades de decisão e de comando - as suas qualidades cedo se revelaram, primeiro em Moçambique, depois na Guiné, onde foi ferido em combate. Tinha todos os requisitos para uma carreira militar distinta que o levaria por certo aos mais altos cargos da hierarquia. Mas Salgueiro Maia não estava fadado para ser apenas mais um, ainda que brilhante, entre outros. Havia nele uma alma de paladino e de cavaleiro antigo. Além de uma forte consciência democrática, reforçada pela convicção de que era preciso encontrar uma solução política para a guerra colonial.
Toda a sua vida foi como que uma preparação profissional e espiritual para um dia, um gesto, um acto decisivo. Como os heróis do Teatro Grego ele estava destinado a aparecer em cena para desencadear a acção, mudar a vida, depois retirar-se e entrar discreta e directamente na História.
Era um homem marcado para uma missão, uma causa, um destino.
A missão era derrubar um regime, a causa - a liberdade, o destino - Portugal.
Como diria Fernando Pessoa “claro no pensar, claro no sentir e claro no querer”. A sua vida cumpriu-se num só dia. E esse dia foi o dia das nossas vidas.
Da arrancada de Santarém à capitulação da Ditadura, no Quartel do Carmo.
Mas o momento supremo, aquele que verdadeiramente decidiu o destino da revolução, foi esse momento absoluto e raro em que, de granada de mão no bolso, Salgueiro Maia conseguiu a rendição do comandante de Cavalaria 7, que dispunha de forças e meios superiores.
Com esse gesto de uma coragem e de uma beleza sem par, Salgueiro Maia garantiu o triunfo da Revolução de Abril.
Foi um só gesto - mas esse gesto pôs fim a meio século de tirania.
Foi só um momento - mas esse momento já é História.
Um gesto e um momento que fizeram de Salgueiro Maia o novo condestável da liberdade portuguesa. Actos assim pertencem à lenda e ao imaginário de um povo; mas nunca são perdoados pelos medíocres.
Grande na decisão com que venceu, Salgueiro Maia foi grande também na nobreza com que tratou os vencidos. E grande continuou, na modéstia com que se retirou de cena, na recusa de cargos e honrarias, na fidelidade à pureza inicial da Revolução de Abril.
Grande ainda na forma como desprezou a inveja e a mesquinhez, sorrindo por alto e por cima às humilhações e vexames que lhe fizeram.
Salgueiro Maia arriscou sempre tudo e nunca quis nada para si próprio.
Fez frente à doença e à morte com a mesma firmeza de carácter com que na madrugada do dia 25 de Abril partiu de Santarém para Lisboa.
Sabe-se que os deuses amam os heróis e que morrem cedo aqueles que os deuses amam. E sabe-se que homens como Salgueiro Maia suscitam sempre inveja e malquerença.
Faltava-lhe sofrer uma última perfídia e uma última ingratidão: a de ver recusada uma pensão que solicitara, a mesma que seria concedida a dois agentes da PIDE por serviços distintos.
Como diz o poema de Sophia de Mello Breyner:
“Nunca choraremos bastante quando vemos
Que quem ousa lutar é destruído
Por troças por insídias por venenos”.
Amanhã ninguém saberá o nome daqueles que o maltrataram. Mas enquanto houver língua portuguesa o nome de Salgueiro Maia será sempre sinónimo e símbolo de liberdade.
Vivemos um tempo de História do avesso. Celebrar os trinta anos do 25 de Abril tem de ser um acto de inconformismo contra a mentira, a mistificação e a falta de vergonha. Mas também de esperança e confiança na Democracia e no 25 de Abril - porque essa foi a causa pela qual, há trinta anos, Salgueiro Maia arrancou de Santarém para conquistar a vitória e entrar na eternidade."
Manuel Alegre
in Diário de Coimbra, 18/Abril/2004
Importante também é a nova análise estatística disponível no sítio do INE que contempla os últimos 30 anos da vida democrática portuguesa, analisando a evolução protagonizada pela Revolução de Abril.
"O antigo ministro socialista da Ciência, Mariano Gago ataca a «quase infantilidade» do Governo que é «chamar outros nomes» aos programas de desenvolvimento científico, que arrancaram no seu tempo, como diz. O primeiro-ministro «pode estar a ser enganado» nesta matéria.
Nos últimos dois anos, andou-se para trás, cortando nos orçamentos para a ciência, no ensino experimental, no emprego científico. Serei o primeiro a aplaudir uma mudança de rumo, não sob a forma de anúncios e propaganda, mas de realizações. (...)
Quais os principais obstáculos à inovação em Portugal?
Em primeiro lugar o tardio desenvolvimento científico e tecnológico do país, ainda hoje muito incipiente. Em seguida, a estrutura produtiva portuguesa, historicamente marcada pelo baixíssimo nível de formação da população portuguesa e, durante grande parte do século XX, pelo condicionamento industrial, pela protecção de um regime político ditatorial, e pelo conforto de um mercado colonial cativo.
Estes factores, por sua vez, contribuíram para a formação de um empresariado atrasado e de um Estado burocrático enredado em favores e ineficiência. Os últimos 30 anos foram de enorme progresso. Mas Portugal é ainda um país com enormes factores de atraso."
Entrevista a Mariano Gago, ex-ministro socialista para a ciência e tecnologia
in Portugal Diário, 18/Abril/2004
Enquanto continuarem a brincar ao faz de conta e a alimentar novos cientistas em fim de carreira e com os miolos já gastos, pouco se poderá fazer para o avanço científico de Portugal. Talvez um upgrade governamental fosse mesmo o primeiro e melhor passo a dar. Já basta de demagogia!
«Trinta anos depois querem tirar o r
se puderem vai a cedilha e o til
trinta anos depois alguém que berre
r de revolução r de Abril
r até de porra r vezes dois
r de renascer trinta anos depois
Trinta anos depois ainda nos resta
da liberdade o l mas qualquer dia
democracia fica sem o d.
Alguém que faça um f para a festa
alguém que venha perguntar porquê
e traga um grande p de poesia.
Trinta anos depois a vida é tua
agarra as letras todas e com elas
escreve a palavra amor (onde somos sempre dois)
escreve a palavra amor em cada rua
e então verás de novo as caravelas
a passar por aqui: trinta anos depois.»
Manuel Alegre
in «Le Monde Diplomatique - edição portuguesa», Abril de 2004
«Uma ânsia de paz, o amor ao bem e a melhoria social dos humildes»
Rodriguez Zapatero,
citando o seu avô, militar republicano (e militante socialista), fuzilado pelas tropas de Franco em 1936, durante a guerra civil espanhola.
«Bush parece sincero, ingénuo, quase inocente. Olha para nós com olhinhos brilhantes de boneca, sem profundidade e sem malícia. Fala com uma convicção de adolescente. E, por mais que se queira, não se pode evitar a suspeita terrível: será que ele acredita naquilo?
Será que não vê diferença entre o Iraque e a Alemanha e o Japão? Será que imagina realmente, na sua pequenina cabeça, um Iraque arrumadinho e rico, muito respeitador do Estado de Direito?
O estereótipo do americano ignorante e simplório já passou de moda. Só que, de repente, ele está ali, na Casa Branca, com o seu ar simpático e bonzão, a preparar uma catástrofe. Um Bush cínico, um Bush hipócrita e mentiroso como Blair não meteria medo. Este Bush mete medo.»
Vasco Pulido Valente
in Diário de Notícias, 16/Abril/2004
«O 25 de Abril fez-se ao som de uma canção de José Afonso. Mas a mais recente 'evolução' é tema de outra cantiga do Zeca. Chama-se 'Os Vampiros'. Lembram-se?»
João Paulo Guerra
in Diário Económico, 16/Abril/2004
É tão bom ter amigos e partilhar com eles numa esplanada, à beira-mar, uma conversa acesa e uma gargalhada estridente, beijados pelo sol que desce no horizonte.
Rir de um e de outro, no humor da crítica, na guerra das ideias, ou na paz da conclusão!
Não haver proibido, nem ter medo de pensar, escrever o que se quer, falar do que se quer, manifestar pelo que se acha correcto, ter memória para construir um futuro mais justo. Não se ser castrado. Amar e ser amado pelo que se é e pelo que se quer ser, sem tabus, nem dogmas de grandes bichos papões que nos assolam os sonhos, mas que já vimos castigar-nos as costas.
Viver a Liberdade e ter fé na Esperança.
Por mais simples que hoje possa parecer, é tão bom ir ao cinema, ao teatro, aos concertos, comprar os jornais, revistas ou livros de que se gosta... e ler integralmente o que alguém escreveu.
É tão bom...
É tão bom relembrar e viver o legado da Revolução de Abril!
Miguel Rodrigues
A partir de Limasol, no sudoeste de Chipre, ciprestes e eucaliptos alinham-se ao longo da estrada que leva à «rocha dos Incrédulos», segundo a denominação dos turcos, que na realidade não passa de um pequeno montículo que emerge do mar no ponto onde Afrodite teria nascido da espuma. O mar tem nesse lugar uma cor azul anil e não há uma única imperfeição no céu. Se se seguir para Pafos, podemos parar à beira-mar para tomar banho ou contemplar os barcos de pesca que regressam com o crepúsculo. E se o coração o ditar, poderemos inclusive visitar uma humilde família cuja casa está sempre aberta a todos. Quero falar-vos de Salih Askeroglu e de Iota Nicolau, que vivem com a sua filha Melisa no bairro dos refugiados, mesmo ao lado do porto. Seremos acolhidos com os braços abertos, de certeza, e talvez nos contem a sua história, que se converteu numa lenda em toda a ilha. É uma história de amor que se parece muito com as de Romeu e Julieta, Tristão e Isolda ou de Leila e Mejnum, com as suas provas, obstáculos e reencontros. A única diferença é que este casal misto viveu-a como uma rebelião contra a intolerância. A história de Salih e de Iota não é, infelizmente, tão agradável como o seu lar, rodeado de um jardinzinho. Como toda a paixão amorosa, está cheia de lágrimas e do que os gregos chamam kaymos e os turcos kara sevda, quer dizer, «amor apaixonado». Mas nela abundam também as separações, as cercas de arame farpado e os interrogatórios.
Salih é um homem feito. Tem trinta e dois anos, olhos verdes, o semblante habitualmente franzido. Quanto a Iota, fez vinte e três; é alta e magra, como o seu nome indica… Terei de precisar que iota é nona letra do alfabeto grego, equivalente à latina I? Fui a Pafos ver estes dois amantes porque tinha ouvido falar deles em Istambul. Queria conhecê-los, assegurar-me de que o amor por vezes pode ser mais forte que o ódio e que a guerra.
Salih e Iota eram vizinhos no bairro turco de Limasol. Não vos sei dizer se se apaixonaram um pelo outro à primeira vista ou se foi preciso tempo para se amarem com loucura. A única coisa que sei é que de início só se falavam através de gestos, porque Salih sabia tanto grego como Iota turco. Mas será que… as palavras fazem realmente falta quando duas pessoas se amam? Basta um olhar, uma carícia às vezes, ou uma palavra amável… Felizmente que ainda existem palavras doces que têm o mesmo significado em ambas as línguas.
O amor de Salih e de Iota permaneceu em segredo até a polícia grego-cipriota o descobrir. A partir de então, recorreu-se todos os meios para os separar. Multiplicaram-se as pressões, todo o tipo de armadilhas e inclusive as ameaças, mas não serviram de nada. Quando a polícia interviu a sério, os dois viram-se obrigados a cruzar clandestinamente a linha verde para se refugiarem na República turca do Norte. Mas os turcos também não os acolheram de braços abertos. Começaram por recusar Iota, que estava grávida, e por colocar Salih a bom recato. Libertaram-no ao fim de uns dias, mas não para que voltasse para a sua amada, mas para o integrar no exército. Ele, então, negou-se a «disparar contra a mãe do seu filho», segundo as suas próprias palavras, e voltaram a encarcerá-lo. Desta vez durante três anos. «Eu não era um Quixote», disse-me Salih, «apenas me quis opor à guerra. Reconheço que era bastante ingénuo para acreditar que a paz entre gregos e turcos ainda era possível porque eu e Iota nos amávamos.»
Enquanto Salih estava na prisão, Iota voltou a atravessar a fronteira, sempre clandestinamente, e deu à luz uma menina. Instalou-se em casa dos seus sogros, que acabaram por aceitá-la e querer-lhe. «Se não fossem eles, tinha-me suicidado», disse-me. «Não podia ver Salih mais do que uma vez por semana e apenas durante vinte minutos. A minha filha cresceu sem ver o pai.»
Quando Salih saiu da cadeia, o exército turco-cipriota quis voltar a mobilizá-lo. Um jovem como ele, «forte como um turco» e «filho de soldado», como o indica o seu próprio apelido Askeroglu, não se podia livrar desse destino nem na Turquia, nem em Chipre, nem em nenhum lugar. Que fazer então? Cruzou outra vez a fronteira com a sua pequena família para se refugiar no Estado grego do Sul.
Hoje a família de Askeroglu vive em Pafos, no bairro dos refugiados, mas ninguém quer contactos com ela. Salih, que tem um título de engenheiro, trabalha como pedreiro nas obras, e Iota, recusada pela sua comunidade porque amou um turco, encarrega-se de educar a filha, Melisa, que entende as duas línguas.
Embora engenheiro pela sua formação, Salih é um pouco poeta. «Queríamos ir-nos embora daqui», disse-me, «mas recusam-se a dar-nos o passaporte. Estamos condenados a viver na ilha.» E acrescentou: «Finalmente percebi. O amor seria essa letra alargada de que fala Yunus Emre.» Sim, Yunus Emre, o grande poeta místico do século XIII, queria suprimir todas as formas de discriminação religiosa:
«Li e compreendi o sentido dos quatro livros.
Quanto ao amor, compreendi que é uma letra alargada.»
Mas Salih referia-se a Iota e não a Elif, que é, por sua vez, a primeira letra do alfabeto árabe e o nome da amada do poeta.
POR
Nedim Gürsel
Os muros foram ao longo da história da humanidade decisivos para a legitimação dos poderes instituídos, mas todos acabaram por se tornar absoletos.
Uma criança, quando vê com um muro à frente, sente-se impelida a investigar e a saltá-lo. Um adulto deve ter uma missão mais ambiciosa: derrubá-lo, sempre que o propósito é injusto.
Muralha de Adriano
Aproximadamente com 173 km e 5 m de altura, foi construída no ano 122 d.C. pelo Imperador romano Adriano (muralha que se estende do golfo de Solway, no mar da Irlanda, até o estuário do Tyne, no mar do Norte, entre a Inglaterra e a Escócia), para proteger os romanos dos ataques bárbaros (principalmente das tribos celtas e dos pictos).
Os visigodos, sob o comando de Alarico, revoltaram-se e foram para sul, ao longo do litoral do que hoje é a Itália e em 410 d.C. saquearam Roma, que era a capital, o que obrigou à deslocação de soldados para mais perto do epicentro da acção, e deixando praticamente ao abandono as populações. Antes do final do século seria dado o golpe de misericórdia ao Império, acabando a hegemonia romana na Europa.
Grande Muralha da China
Na verdade não existiram uma, mas duas muralhas, ou melhor, a reconstrução e ampliação da primeira, séculos mais tarde. Os trabalhos da primeira muralha, que não era mais do que a ligação de várias barreiras defensivas, ocorreu na era Chin (221 a 206 a.C.), e coincidiu com a reunificação do Império. A dinastia dos Han ( 206 a C. a 220 D.C.) levou avante a obra, mas nesta dinastia o Império Chinês foi conquistado por Gengis Khan, que a incorporou no seu imenso Império Mongol (sec. V d.C.). Foi neste período que a Grande Muralha perdeu toda a sua importância e estratégia, acabando por ser abandonada.
Na dinastia Ming (a partir de 1368), reconstruiu-se a muralha, tal como a conhecemos hoje, com cerca de 6.350 km, e entre 7 m a 10 m de altura (é a única construção humana visível do espaço), tarefa hercúlea e que se mostrou inútil no sec. XVI.
(Foi também esta dinastia que mudou a capital para Pequim (Beijing), e cedeu Macau aos portugueses).
Muro de Berlim (1961 – 1989)
Envolvendo por completo a cidade, tinha 155 km, na sua cintura externa e 43 km na sua cintura interna, dos quais 37 eram numa zona residencial. A cidade de Berlim foi conquistada pelo Exército Vermelho aos nazis (Maio de 1945), e seguidamente dividida pelos vencedores aliados da II Guerra Mundial, segundo os acordos de Yalta e Potsdam. Mandado construir por Estaline, depois da reunificação da parte francesa, britânica e americana e da implementação do plano Marshall, que foi considerado uma afronta pelo poder soviético, este muro tinha 302 torres de observação que alvejavam todos aqueles que o tentassem “saltar”.
A esquizofrenia geopolítica que esteve na criação desta aberração, acabou por ser vencida em 1989, quando a Alemanha iniciou a sua reunificação, e os habitantes de Berlim poderem voltar a cruzar “a linha”.
Linha divisória da ilha de Chipre
A ilha de Chipre foi ao longo da História sendo sucessivamente ocupado pelas potências dominantes mediterrânicas. Em 1571 os turcos invadiram esta ilha e ficaram na sua posse até 1878, altura em que durante a guerra com a Rússia, os turcos para evitar a expansão daquele império optam pelo mal menor e permitem que a Grã-Bretanha administre a ilha, apesar de manterem a sua possessão.
Depois da I Guerra Mundial, e com o desmembramento do Império Otomano, que abordou a guerra pelo lado errado (dos vencidos), a Grã-Bretanha anulou o acordo e em 1923, com o Tratado de Lausanne legitimou a ocupação britânica. Em 1948, o bispo Mihail Mouskos inicia uma revolta contra a soberania britânica e defende a integração na Grécia, o que não virá a conseguir. Em Agosto de 1960, será Mouskos a ocupar o lugar da presidência, enquanto o vice-presidente (pró-turco), será Fazil Kuchuk. Esta “aliança” só dura três anos, quando Mouskos pede alterações constitucionais consideradas inadmissíveis pela minoria turca, e provocando a discórdia total e a insurreição. A tensão foi subindo, até que em Fevereiro de 1975, após a invasão de um terço da ilha pelas tropas turcas, foi declarada a independência, sem negociações, e apenas reconhecida por Ankara. A ver vamos o que acontece no referendo e quem irá aderir à UE no próximo mês de Maio.
Linha divisória da Coreia (paralelo 38)
A Coreia foi ocupada durante centenas de anos pela China, tendo sido ajudada pelos japoneses em 1895 numa rebelião contra os chineses, que garantiu a sua independência. No teu entanto foi “sol de pouca dura”, já que os seus “amigos da onça” anexaram-na ao império nipónico em 1910, numa política neocolonialista e de expansionismo.
Na II Guerra Mundial os coreanos lutaram com os chineses (país onde se encontrava o governo coreano no exílio) contra o domínio japonês, e a partir de 1943, na Conferência do Cairo, ficou assente o apoio à independência da Coreia. Finda a guerra, define-se em Yalta e Potsdan a divisão desta pelo paralelo 38, em duas zonas de influência: o norte soviético e o sul a norte-americano. Percebe-se na Coreia o início da “Guerra Fria”. Em 1947, formaram-se dois governos, tendo sido apenas o do sul foi reconhecido pela O.N.U. No ano seguinte constituíram-se dois Estados autónomos: A República Popular Democrática da Coreia ( ao norte com o sistema comunista) e a República da Coreia ( ao sul, com o sistema capitalista). Em 1949, a maior parte das tropas estrangeiras retirou-se do país.
Em Julho de 1950 as tropas do norte invadiram o sul, conquistando Seul, o que motivou os EUA a enviarem tropas para ajudarem o sul. Os americanos conquistaram o norte, e avançaram até à fronteira com a China, o que motivou o seu apoio aos norte - coreanos e à sua entrada na guerra. Em 1952 os EUA adoptam uma política defensiva, centrada em preservar a sua influência na Coreia do Sul e aceitam a divisão com o norte. O armistício em 27 de Julho de 1953, ditou a separação das Coreias.
Barreira divisória de separação israelita
Com a previsão de uma extensão de 720 km, a contrução israelita em curso é vista por estes como defensiva contra os ataques suicidas dos “radicais islâmicos”.
O principal problema (além do óbvio), é o facto do muro não respeitar a Linha Verde (definida pelo armistício de 1949), nem sequer as suas fronteiras em 1967. O muro serpenteia ao sabor da defesa dos colonatos judeus, em terras palestinianas, afirmando como legítima a implantação ilegal nos territórios ocupados. Existem enclaves israelitas rodeados pela barreira, populações palestinianas cercadas, ursupação de terras e a destruição de sistemas de rega e de sistemas de acesso.
Com quatro guerras israelo-árabes, o armamento crescente de Israel patrocinado pelo Ocidente a partir dos anos 50, um fluxo muito grande de emigrantes judeus nos anos 1930-40, e o território da Palestina em meados dos anos 1960 diminuido a cerca de 21% do que era no início do sec. XX, dão “pano para mangas”.
Mais informação em http://www.ipv.pt/millenium/esf10_palest.htm ou Palestine Campaign.
PS - Um kamikaze que falhou explicou a um jornalista israelita porque tentara a acção: “Um dia estava em casa, não podia sair porque a minha cidade estava sob recolher obrigatório. Olhando pela janela vi um cão atravessar calmamente a rua sem que os soldados israelitas o incomodassem. Conclui: a minha vida vale menos do que a de um cão”.
Miguel Rodrigues
“Os colunatos são bairros pedagógicos que servem para ensinarmos aos palestinianos novas formas de arquitectura, urbanismo e ordenamento do território. Aprendemos isso nos anos 40. Ele há lá muro mais bonito?! (é para proteger essas pérolas arquitectónicas dos vândalos - estilo ghetto, Grande Muralha da China, ou a Muralha de Adriano. A História ensinou-nos o que aconteceu nesses exemplos, mas nós achamos que são mentiras espalhadas pelos anti-semitas).”
Sharon, pistoleiro do médio oriente
“Taiwan (ainda) é nossa!”
Jintao, o esquecido
Operação Rolo Compressor
“Ao que o INIMIGO PÚBLICO apurou, apenas o primeiro-ministro e Amílcar Theias se vão manter em funções. Um estudo de opinião revelou que a inactividade do ministro do ambiente o manteve praticamente anónimo e, deste modo, imune ao desgaste da governação. Quanto a Durão Barroso, não há volta a dar-lhe, tem mesmo de ficar. O primeiro-ministro já comunicou esta decisão aos 16 governantes que vão sair e não poupou nas palavras: chamou-lhes tontinhos, bateu com a mão na parede e culpou-os pela actual situação do país.
Mas nem toda a gente levou a mal: “Este Governo que faço parte mergulhou o país na mais longa recessão da sua História recente e manipulou de forma grosseira os números do défice. Paralisou a economia, desmoralizou a administração pública, governou sem transparência, nem credibilidade e tinha de mudar, porque muito francamente, estava morto e tresandava”, declarou-nos um ministro laranja que outrora se candidatou sem sucesso à liderança do PSD.(...)”
in Inimigo Público (jornal Público), 16/Abril/2004
Luta contra o terrorismo segundo a cartilha americana
“É bem sabido que os muçulmanos fundamentalistas (terroristas em potência) se opõem ao consumo de álcool e consideram pecado capital ver uma mulher nua que não seja a sua. Por isso, apelamos para que nesta sexta-feira, às dezassete horas, hora de Lisboa, todas as mulheres corram nuas pelo escritórios (bancos, repartições públicas,empresas privadas etc.) e que todos os homens corram atrás delas com uma cerveja na mão. Isto ajudar-nos-à a detectar os terroristas que existem entre nós, a fim de os capturar e deportar.
Aqueles que fizerem cara de nojo deverão ser presos imediatamente - depois faremos a triagem, para separar as bichas. O Mundo livre e democrático agradece estes esforços na luta contra o terrorismo. Esperamos a contribuição de todos. Favor divulgar, pois todos temos de nos unir contra o terrorismo.”
"Primeira lição: esta globalização é insustentável.
O relatório mais importante da reunião dos G-8 foi elaborado por quem lá não esteve, pelos Ministros das Finanças dos sete países mais ricos. Esse relatório, intitulado "O alívio da dívida e para além dele", é revelador da contradição insanável entre a economia neoliberal e o bem-estar da maioria da população mundial. Reconhecendo que esse bem-estar depende hoje do alívio da dívida externa dos países mais pobres, o relatório proclama o êxito da iniciativa nesse sentido em relação a 23 países (entre os quais, três de língua oficial portuguesa: a Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe) e assegura que, a médio prazo, a sustentabilidade da dívida assenta na maior integração desses países no comércio mundial. No entanto, é o próprio relatório a afirmar que a participação dos países menos desenvolvidos no comércio mundial diminuiu na última década e por isso se empobreceram. Ora, não se propondo no documento nada radicalmente novo que altere este estado de coisas, a hipocrisia não poderia ser maior: impõe-se como solução a metade da população mundial o que se reconhece ter sido até agora o seu problema. E a hipocrisia atinge o paroxismo na abordagem das pandemias (HIV/AIDS, malária e tuberculose)que afligem os países menos desenvolvidos. Depois de reconhecer que estas doenças matarão 15 milhões de pessoas por ano, insiste-se que a produção de medicamentos mais baratos deve ser feita sem violação da protecção dos direitos de propriedade intelectual das multinacionais farmacêuticas.
A contradição deste modelo é insanável porque a liberalização das trocas sem condições é como um combate de boxe entre um peso-pesado e um peso-pluma. Se o Mali controlasse o preço internacional do algodão a sua dívida não seria, como é de novo, "insustentável". Se Moçambique pudesse ter resistido à imposição do Banco Mundial no sentido de eliminar as tarifas sobre a exportação do caju, não teria destruído a sua indústria de processamento de caju. Haveria menos fome no mundo se os países menos desenvolvidos pudessem proteger as suas actividades económicas da voracidade das 200 maiores empresas multinacionais que detêm 28% do comércio global mas apenas 1% do emprego global. Se os países, endividados em dólares, pudessem resistir à desvalorização das suas moedas não veriam as suas dívidas aumentar por mero efeito da desvalorização. A balança comercial dos países menos desenvolvidos não se deterioraria tão drasticamente se os seus produtos não estivessem sujeitos ao proteccionismo dos países ricos (a mãe de todas as hipocrisias do neoliberalismo) e não tivessem que competir com produtos altamente subsidiados.
Segunda lição: está em curso uma globalização alternativa.
À medida que o neoliberalismo deixa cair a máscara, vai emergindo uma opinião pública mundial assente no seguinte: os governos nacionais estão hoje reféns dos grandes interesses económicos e a democracia disfarça essa dependência ao ser mais ou menos efectiva nas áreas que não interferem com tais interesses; sem formas de controle político democrático efectivo, a nível local, nacional e global, a busca incessante do lucro cria disparidades eticamente repugnantes entre ricos e pobres e causa danos irreversíveis ao meio ambiente; num modelo económico assente no respeito sagrado pela propriedade privada, a magnitude da falta de controle público sobre a riqueza mundial reside no facto de dos 100 maiores Produtos Internos Brutos mundiais, 50 não pertencerem a países mas a empresas multinacionais; este modelo de (in)civilização não é inelutável, tem pés de barro e a sua força reside sobretudo na apatia e no conformismo que produz em nós. Esta opinião pública mundial começa a dar vida a centenas de milhares de organizações não governamentais, e de redes de advocacia transnacional que vão organizando a resistência à globalização hegemónica e formulando alternativas que, na cacofonia da sua diversidade, têm em comum a ideia de que a dignidade humana é indivisível e que só pode florescer em equilíbrio com a natureza e numa organização social que não reduza os valores a preços de mercado.
Terceira lição: o diálogo entre as duas globalizações é inadiável.
O capitalismo global — representado pelos governos dos países ricos e pelas agências financeiras e comerciais multilaterais que eles dominam — que pensava ter caminho livre depois da queda do Muro de Berlim é hoje obrigado a erigir muros de aço e de cimento para que os seus representantes possam continuar a tomar decisões que ele reclama. A violência deste sistema alimenta-se da violência de alguns grupos minoritários que lutam contra ele mas alimenta-se sobretudo da falta do reconhecimento da globalização alternativa, protagonizada pelos que se sentem solidários com os interesses dos muitos milhões excluídos das reuniões e vítimas das decisões. O diálogo é, pois, inadiável para que se passe de uma retórica cínica de concessões vazias à elaboração de um novo contrato social global caucionado por uma nova arquitectura política democrática também ela global. Será um diálogo difícil e certamente confrontacional, mas incontornável.
Quarta lição: de Génova 2001 a Porto Alegre 2002 há um longo caminho a percorrer.
À medida que cresce a globalização contra-hegemónica, cresce a responsabilidade dos seus protagonistas. Essa responsabilidade vai ser medida a três níveis: organização, actuação e objectivos. A qualquer destes níveis as tarefas são exigentes. A energia do movimento pela globalização alternativa reside na sua diversidade interna, nas múltiplas formas de organização e de actuação e nos múltiplos objectivos que acolhe. Esta diversidade vai ser mantida quanto mais não seja porque não há no movimento nenhum grupo ou organização capaz de a cooptar ou eliminar a seu favor. No entanto, ao nível da organização vai ser necessário aprofundar os processos de coordenação e de assegurar o carácter global e democrático destes. Ao nível das formas de actuação, o movimento tem de proceder a uma distinção fundamental entre violência que deve ser rechaçada, e ilegalidade que deve ser acolhida sempre que os meios legais não estejam disponíveis ou não bastem. O capitalismo global, ao mesmo tempo que provoca a desregulamentação da economia dos países, impõe uma nova legalidade que, por exemplo, torna ilegal proteger os direitos dos trabalhadores ou o meio ambiente. Todos os grandes movimentos democráticos começaram com acções ilegais (manifestações e greves não autorizadas, acção directa, desobediência civil). Há que elaborar uma teoria democrática da ilegalidade não violenta. Finalmente, ao nível dos objectivos há que distinguir entre os primeiros passos e os horizontes. Neste momento, os primeiros passos estão razoavelmente bem definidos e são eles que integrarão os primeiros e mais difíceis momentos do diálogo entre globalizações: perdão efectivo da dívida; impostos Tobin; democratização dos processos de decisão das agências financeiras multilaterais; sujeição a referendo das mais importantes iniciativas de liberalização do comércio; inclusão em novas negociações comerciais (sobretudo no âmbito da Organização Mundial do Comércio) dos direitos humanos, em especial dos direitos laborais e ambientais. Mas estes primeiros passos devem ser integrados num horizonte civilizacional mais amplo, no horizonte de um mundo melhor. Só assim se garantirá que o sistema actual, já de si bastante injusto, não venha a ser, pela perversão dos objectivos contra-hegemónicos, substituído por outro ainda pior. São tarefas urgentes na agenda do povo de Porto Alegre."
Boaventura de Sousa Santos
in Folha de São Paulo, 26/Julho/2001
Mais lições no Fórum Cultural Mundial
The movie ran through me
The glamour subdue me
The tabloid untie me
I'm empty please fill me
Mister anchor assure me
That Baghdad is burning
Your voice it is so soothing
That cunning mantra of killing
I need you my witness
To dress this up so bloodless
To numb me and purge me now
Of thoughts of blaming you
Yes the car is our wheelchair
My witness your coughing
Oily silence mocks the legless
Now traveling in coffins
But on the corner
The jury's sleepless
We found your weakness
And it's right outside our door
Now testify
With precision you feed me
My witness I'm hungry
Your temple it calms me
So I can carry on
My slaving sweating the skin right off my bones
On a bed of fire I'm choking on the smoke that fills my home
The wrecking ball rushing
My witness your blushing
The pipeline is gushing
While here we lie in tombs
While on the corner
The jury's sleepless
We found your weakness
And it's right outside your door
Now testify
Mass graves for the pump and the price is set
Who controls the past now controls the future
Who controls the present now controls the past
Who controls the past now controls the future
Who controls the present now?
Now testify
Music: Testify
Artist: Rage Against The Machine
Album: The Battle Of Los Angeles
***
Transmission third world war third round
A decade of the weapon of sound above ground
Ain't no shelter if you're looking for shade
I lick shots at the brutal charade
As tha polls close like a casket
On truth devoured
A silent play on the shadow of power
A spectacle monopolized
The camera's eye on choice disguised
Was it cast for the mass who burn and toil?
Or for the vultures who thirst for blood and oil?
A spectacle monopolized
They hold the reins and stole your eyes
The fistagons bullets and bombs
Who stuff the banks
Who staff the party ranks
More for Gore or the son of a drug lord
None of the above fuck it cut the cord
Lights out guerrilla radio
Turn that shit up
Contact I highjacked the frequencies
Blockin' the beltway
Move on DC
Way past the days of bombin' mc's
Sound off Mumia guan be free
Who gottem yo check the federal file
All you pen devils know the trial was vile
An army of pigs try to silence my style
Off em all out that box it's my radio dial
Lights out guerrilla radio
Turn that shit up
It has to start somewhere
It has to start sometime
What better place than here
What better time than now
All hell can't stop us now
Music: Guerrilla Radio
Artist: Rage Against The Machine
Album: The Battle Of Los Angeles
Venham mais cinco
Duma assentada
Que eu pago já
Do branco ou tinto
Se o velho estica
Eu fico por cá
Se tem má pinta
Dá-lhe um apito
E põe-no a andar
De espada à cinta
Já crê que é rei
D'aquém e d'além Mar
Não me obriguem
A vir para a rua
Gritar
Que é já tempo
D'embalar a trouxa
E zarpar
A gente ajuda
Havemos de ser mais
Eu bem sei
Mas há quem queira
Deitar abaixo
O que eu levantei
A bucha é dura
Mais dura é a razão
Que a sustem
Só nesta rusga
Não há lugar
P'rós filhos da mãe
Não me obriguem
A vir para a rua
Gritar
Que é já tempo
D'embalar a trouxa
E zarpar
Bem me diziam
Bem me avisavam
Como era a lei
Na minha terra
Quem trepa
No coqueiro
É o rei
Música e letra: José Afonso
in Venham mais cinco (1973)
Com um brilhozinho nos olhos
e a saia rodada
escancaraste a porta do bar
trazias o cabelo aos ombros
passeando de cá para lá
como as ondas do mar.
Conheço tão bem esses olhos
e nunca me enganam,
o que é que aconteceu, diz lá
é que hoje fiz um amigo
e coisa mais preciosa
no mundo não há.
Com um brilhozinho nos olhos
metemos o carro
muito à frente, muito à frente dos bois
ou seja, fizemos promessas
trocamos retratos
trocamos projectos os dois
trocamos de roupa, trocamos de corpo,
trocamos de beijos, tão bom, é tão bom
e com um brilhozinho nos olhos
tocamos guitarra
p'lo menos a julgar pelo som
E que é que foi que ele disse?
E que é que foi que ele disse?
Hoje soube-me a pouco. [x4]
passa aí mais um bocadinho
que estou quase a ficar louco
Hoje soube-me a tanto [x4]
portanto,
Hoje soube-me a pouco
Com um brilhozinho nos olhos
corremos os estores
pusemos a rádio no "on"
acendemos a já costumeira
velinha de igreja
pusemos no "off" o telefone
e olha, não dá p'ra contar
mas sei que tu sabes
daquilo que sabes que eu sei
e com um brilhozinho nos olhos
ficamos parados
depois do que não te contei
Com um brilhozinho nos olhos
dissemos, sei lá
o que nos passou pela tola [o que nos passou pelo goto]
do estilo és o "number one"
dou-te vinte valores
és um treze no totobola [és o seis do meu totoloto]
e às duas por três
bebemos um copo
fizemos o quatro e pintámos o sete
e com um brilhozinho nos olhos
ficamos imóveis
a dar uma de "tête a tête"
E que é que foi que ele disse?
...
E com um brilhozinho nos olhos
tentamos saber
para lá do que muito se amou
quem éramos nós
quem queríamos ser
e quais as esperanças
que a vida roubou
e olhei-o de longe
e mirei-o de perto
que quem não vê caras
não vê corações
com um brilhozinho nos olhos
guardei um amigo
que é coisa que vale milhões.
E que é que foi que ele disse?
...
Música e letra: Sérgio Godinho
in Canto da Boca (1981)
Durante debate numa universidade, nos Estados Unidos, o ex-ministro da educação brasileiro CRISTOVAM BUARQUE, foi questionado sobre o que pensava da internacionalização da Amazónia.
Um jovem americano introduziu sua pergunta dizendo que esperava a resposta de um humanista e não de um brasileiro.
Esta foi a resposta do Sr.Cristovam Buarque:
"De facto, como brasileiro eu simplesmente falaria contra internacionalização da Amazônia. Por mais que nossos governos não tenham o devido cuidado com esse patrimônio, ele é nosso.
Como humanista, sentindo o risco da degradação ambiental que sofre a Amazônia, posso imaginar a sua internacionalização, como também de tudo o mais que tem importância para a humanidade. Se a Amazônia, sob uma ética humanista, deve ser internacionalizada, internacionalizemos também as reservas de petróleo do mundo inteiro...
O petróleo é tão importante para o bem-estar da humanidade quanto a Amazônia para o nosso futuro. Apesar disso, os donos das reservas sentem-se no direito de aumentar ou diminuir a extracção de petróleo e subir ou não o seu preço.
Da mesma forma, o capital financeiro dos países ricos deveria ser internacionalizado. Se a Amazônia é uma reserva para todos os seres humanos, ela não pode ser queimada pela vontade de um dono, ou de um país. Queimar a Amazônia é tão grave quanto o desemprego provocado pelas decisões arbitrárias dos especuladores globais. Não podemos deixar que as reservas financeiras sirvam para queimar países inteiros na volúpia da especulação.
Antes mesmo da Amazônia, eu gostaria de ver a internacionalização de todos os grandes museus do mundo. O Louvre não deve pertencer apenas à França. Cada museu do mundo é guardião das mais belas peças produzidas pelo gênio humano.
Não se pode deixar esse patrimônio cultural, como o patrimônio natural Amazônico, seja manipulado e destruído pelo gosto de um proprietário ou de um país.
Não faz muito, um milionário japonês, decidiu enterrar com ele, um quadro de um grande mestre. Antes disso, aquele quadro deveria ter sido internacionalizado.
Durante este encontro, as Nações Unidas estão realizando o Fórum do Milênio, mas alguns presidentes de países tiveram dificuldades em comparecer por constrangimentos na fronteira dos EUA. Por isso, eu acho que Nova York, como sede das Nações Unidas, deve ser internacionalizada. Pelo menos Mannhatan deveria pertencer a toda a Humanidade. Assim como Paris,Veneza, Roma, Londres, Rio de Janeiro, Brasília, Recife, cada cidade, com sua beleza específica, sua história do mundo, deveria pertencer ao mundo inteiro.
Se os EUA querem internacionalizar a Amazônia, pelo risco de deixá-la nas mãos de brasileiros, internacionalizemos todos os arsenais nucleares dos EUA. Até porque eles já demonstraram que são capazes de usar essas armas, provocando uma destruição milhares de vezes maior do que as lamentáveis queimadas feitas nas florestas do Brasil.
Nos seus debates, os actuais candidatos à presidência dos EUA têm defendido a ideia de internacionalizar as reservas florestais do mundo em troca da dívida. Comecemos usando essa dívida para garantir que cada criança do Mundo tenha possibilidade de COMER e de ir à escola.
Internacionalizemos as crianças tratando-as, todas elas, não importando país onde nasceram, como patrimônio que merece cuidados do mundo inteiro. Ainda mais do que merece a Amazônia.
Quando os dirigentes tratarem as crianças pobres do mundo como um patrimônio da Humanidade, eles não deixarão que elas trabalhem quando deveriam estudar, que morram quando deveriam viver!
Como humanista, aceito defender a internacionalização do mundo.
Mas,enquanto o mundo me tratar como brasileiro, lutarei para que a Amazônia seja nossa. Só nossa!".
“Se queremos que o país evolua temos de diminuir as despesas. E as despesas não estão nos carros novos que a nossa administração comprou, nem nas despesas de manutenção dos nossos militares no Iraque, nem na aquisição de novos submarinos e de caças para parecermos bem ao pé dos outros membros da NATO. Nem tão pouco queremos ganhar dinheiro em receitas extras com a privatização da saúde, ou até da água. (Não será tão bom ver os hospitais a funcionar como uma empresa? Claro que sim! Esperemos é não ter uma doença que implique operações muito caras... afinal de contas irá manchar a contabilidade). E a educação não está assim tão mal! Só somos o país mais analfabeto da União Europeia... mas fora da UE existem países com índices de analfabetismo maiores! Oh... As despesas estão nos trabalhadores, esses têm de ser postos na ordem! Para quê reestruturar e modernizar sem privatizar?”
Durão, o mordomo cherne
“Eu não sabia que invadir países dava tanto trabalho! Eu só queria estabelecer governos pró americanos e democráticos (pelo menos aparentemente), para ajudar as empresas americanas a obterem contratos de reconstrução e obras públicas e de exploração das reservas petrolíferas. Era só isso. Deixam-me trabalhar?”
Bush, o mentecapto americano
“Ainda ontem quando vi na TV o Rambo na sua missão contra a opressão soviética no Afeganistão nos anos 80, quase que parecia... Ai meu Deus! Acho que tenho de fazer psicanálise!”
Powell, o contador de histórias
“Não era uma mentira... era só uma achega!”
Aznar, o PRIMEIRO azarado
Este documento, que se tornou um clássico para as democracias do mundo contemporâneo, foi aprovado no dia 26 de agosto de 1789, pela Assembleia Constituinte, no contexto inicial da Revolução Francesa. Os seus princípios iluministas tinham como base a liberdade e igualdade perante a lei, a defesa inalienável à propriedade e o direito de resistência à opressão.
Eis aqui parte desse importante documento:
I
Os homens nascem e permanecem livres e iguais perante a lei (...).
II
O fim de toda associação política é a conservação dos direitos naturais e imprescritíveis do homem; esses direitos são: a liberdade, a propriedade, a segurança e a resistência à opressão. (...)
IV
A liberdade consiste em fazer tudo que não perturbe a outrem. Assim, os exercícios dos direitos naturais de cada homem não tem limites senão os que asseguram aos outros membros da sociedade o desfrute desse mesmo direito (...)
V
A lei só tem o direito de proibir as acções que prejudiquem a sociedade.
Tudo quanto não for impedido por lei não pode ser proibido e ninguém é obrigado a fazer o que a lei não ordena.
VI
A lei é a expressão de vontade geral; todos os cidadão têm o direito de concorrer pessoalmente ou pelos seus representantes para a sua formação; deve ser a mesma para todos, seja protegendo-os, seja punindo-os. Todos os cidadãos sendo iguais aos seus olhos, são igualmente admissíveis a todas as dignidades, lugares e empregos públicos, segundo as respectivas capacidades e sem outras distinções que não sejam as das suas virtudes e as dos seus talentos.
VII
Ninguém pode ser acusado, preso, nem detido, senão nos casos determinados pela lei, e segundo as formas por ela prescritas. Os que solicitam, expedem, ou fazem executar, ordens arbitrárias devem ser punidos. (...)
IX
Todo homem é presumido inocente, até que tenha sido declarado culpado e se for indispensável será preso, mas todo rigor que não for necessário contra sua pessoa deve ser severamente reprimido pela lei.
X
Ninguém deve ser inquietado pelas suas opiniões, mesmo religiosas, desde que as suas manifestações não prejudiquem a ordem pública estabelecida pela lei.
XI
A livre comunicação das opiniões e dos pensamentos é um dos direitos mais preciosos do homem; todo o cidadão pode então falar, escrever, imprimir livremente; devendo responder pelos abusos desta liberdade em casos determinados pela lei. (...)
XIII
Para manutenção da força pública e para os gastos de administração, uma contribuição comum é indispensável; ela deve ser igualmente repartida entre todos os cidadãos na razão das suas faculdades. (...)
XVII
A propriedade sendo um direito inviolável e sagrado, ninguém dela pode ser privado se não for por necessidade pública, legalmente constatada, sob a condição de uma justa e prévia indemnização.
Miguel Rodrigues
«É curioso, e quase do domínio da psicanálise, como a direita portuguesa, assessorada por algum historiador que se preste a dar a este propósito ideológico foros de pseudocientificidade, confunde os seus desejos com a realidade. Efectivamente, Abril não foi evolução porque as direitas portuguesas foram historicamente incapazes de realizar um processo de transição, isto é, de levar a cabo, a partir do próprio regime, um processo endógeno e sustentado de reformas modernizantes, à semelhança do que se passou com o franquismo, em Espanha.»
Fernando Rosas
in Público, 14/Abril/2004
«O Presidente norte-americano, George W. Bush, pediu às Nações Unidas uma nova resolução para que mais países possam enviar tropas para o Iraque. Numa conferência de imprensa na Casa Branca, Bush confirmou que a transferência de soberania para os iraquianos continua marcada para o dia 30 de Junho, admitiu enviar mais tropas para o Iraque e exigiu ao líder xiita rebelde Moqtada al-Sadr que dissolva as suas milícias.
"Gostaria que o Conselho de Segurança da ONU adoptasse uma nova resolução que ajudasse outros países a tomarem a decisão de ajudar", declarou Bush perantes os jornalistas.
George W. Bush comprometeu-se ainda a enviar mais tropas e os recursos necessários para instaurar a democracia no Iraque: "Acabaremos o trabalho começado pelos que já morreram", afirmou. Os Estados Unidos contam com 135 mil soldados no Iraque, mas o general John Abiz, chefe do Comando Central, pediu esta semana um reforço.»
* * *
«O ministro iraniano dos Negócios Estrangeiros, Kamal Kharazi, afirmou hoje que os Estados Unidos pediram ajuda ao Irão para, em conjunto, tentarem travar a crise no Iraque.
"Estamos em comunicação com os americanos. Em relação ao Iraque, trocamos muita correspondência. Os EUA pediram-nos ajuda para tentar melhorar a situação no Iraque e nós estamos a mover esforços nesse sentido", declarou Kharazi.»
* * *
«A Rússia vai fazer regressar, a partir de amanhã, centenas de cidadãos russos que estão no Iraque.
"Estamos a preparar três voos para amanhã e quatro para sexta-feira, para fazer regressar todos os que queiram sair do Iraque, de entre os 553 russos e os 263 cidadãos da CEI [ex-URSS menos os países bálticos]" que estão no país, declarou à AFP Viktor Beltsov, porta-voz do Ministério para as Situações de Emergência.
Seis dos sete voos farão o trajecto Bagdad-Moscovo e o sétimo partirá do Kuwait em direcção à capital russa.
A Rússia recomendou ontem aos seus cidadãos que abandonem o Iraque, depois do rapto, na segunda-feira à noite, de oito funcionários de uma empresa russa, libertados durante o dia de ontem.
A Rússia, membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, esteve contra a intervenção unilateral americana e britânica no Iraque, à semelhança da França e da Alemanha.»
in Público, 14/Abril/2004
Interessante como o sr. Bush não precisou da ajuda de ninguém para iniciar a guerra no Iraque, contando apenas com o seu aliado inglês, e agora quer envolver toda a gente de todo o mundo.
Contou que a população do Iraque aplaudisse os seus libertadores, mas em verdade, esses pseudo-libertadores (os americanos), só queriam mesmo era apropriar-se os recursos petrolíferos iraquianos e estabelecer mais umas basezinhas militares para controlar a região.
A certa altura parece mesmo que se trata apenas de um ajuste de contas em nome do seu pai, também Bush, acabando o serviço que ele não conseguiu ou não pôde acabar. Tomou Bagdá, mas qual Pilatos (tão em voga nesta quadra pascal), ficou com as mãos sujas de sangue.
É triste(?!), sr. Bush, vê-lo a afundar cada dia e a cada dia vêr-se o seu desespero a aumentar. Mas só está a pagar o preço justo pela mentira que tentou impingir ao Mundo. E só a comprou quem quis. O sr Aznar já provou o sabor da fel. Aguardamos que os outros também a provem.
Cá por Portugal, enquanto o Governo vive na ilusão de que está muito bem protegido pelos aviões da OTAN (NATO), fica a esperança (para quem sabe que estes ataques terroristas não chegam com "aviso de recepção"...), de que nada se passe por cá. A OTAN não é nem será uma garantia de segurança, e num sec. XXI que se quer de Paz e Prosperidade (e onde já não existem Guerras Frias nem Pactos de Varsóvia), esta é seguramente uma estratégia para manter viva uma estrutura velha e caduca.
Miguel Rodrigues
"De certa maneira, a ponte de Entre-os-Rios voltou a cair esta semana, a com a extraordinária conclusão de que a culpa foi do Inverno"
Fernando Madrinha in Expresso, 27/Março/2004
"PR desafia Governo a integrar imigrantes"
in Diário de Notícias, 30/Março/2004
"Para satisfazer os humanistas do leste da Europa de duas caras, Kwasniewsky e Vaclav Havel, os pistoleiros filantrópicos norte-americanos resolveram queimar vivos com armas químicas alguns iraquianos, que defendiam a independência do seu país. Para isso usaram bombas de napalm século XXI, as MK-77 [banidas pela ONU numa convençao da década de 1980 que os "humanistas" EUA não assinaram], revelou o dirigente do Pentágono Mike Daily. (...)
O polaco Kwasniewsky e o checo Vaclav Havel acharam divertida a invasão do Iraque, só não acharam divertidas as invasões da Polónia e da Checoslováquia.
Afinal sempre era verdade que seriam encontrados vestígios de armas químicas no Iraque."
in Blog anti-direita portuguesa, 03/Abril/2004
"A invasão do Iraque foi um fracasso e as motivações que levaram os americanos a intervir eram mentiras. (...) Os resultados da Admnistração Bush são evidentes: percebeu que ser o único alvo do fundamentalismo islâmico era demasiado perigoso. E achou que distribuir as desgraças era uma forma de se acautelar, o que conseguiu perfeitamente."
Antonio Tabucchi, in Diário de Notícias, 11/Abril/2004
"Se o Homem continuar a utilizar os recursos ao ritmo actual, dentro de 50 anos serão precisos dois planetas do tamanho da Terra para assegurar a sobrevivência humana"
in Público, 12/Abril/2004
"Neste país, não há conflitos sociais, o que é estranho. Há uma espécie de apatia geral e vê-se o Governo a recuar perante inimigos que não existem. (...) Este Governo chegou a meio do mandato e continuamos com um peso imenso do Estado na economia. (...) Estamos como quando o engº Guterres deixou o país."
Saldanha Sanches, in Jornal de Notícias, 12/Abril/2004
"É preciso que entre na mentalidade dos políticos, dos comentadores e na sociedade em geral que a ciência e o desenvolvimento científico são vitais para o desenvolvimento do país."
João Lobo Antunes, in Diário de Notícias, 12/Abril/2004
"Francisco Lyon de Castro: A morte do velho leão (1914 - 2004). Começou como tipógrafo na Imprensa Nacional (...), a cultura operária leva-o a filiar-se no Partido Comunista, do qual se afasta nos anos 40. Aos 29 anos fundou um dos maiores impérios editoriais portugueses, as Publicações Europa-América. Permaneceu activo até quase ao último dia. (...) Desapareceu ontem um dos derradeiros expoentes da cultura operária do início do sec. XX."
in Público, 12/Abril/2004
O país precisa de educação pública de qualidade para ultrapassar os obstáculos que o esperam neste sec. XXI. O panorama actual não é dignificante: um milhão de analfabetos (em 10 milhões de habitantes), a maior taxa de iliteracia, a maior taxa de abandono escolar e a maior taxa de insucesso escolar da União Europeia, dão uma ideia do que falta fazer.
Ao mesmo tempo existem mais de vinte mil professores no desemprego, 200 mil dos quais passam fome, e para os quais não se vislumbra um futuro risonho.
Outro dos problemas mais importantes reporta ao estado das escolas, degradadas e sem condições, turmas com alunos a mais, o muito baixo investimento estatal. Continuam a existir instituições que não têm dinheiro para comprar coisas tão simples como reagentes para os alunos efectuarem as experiências necessárias à sua formação.
É também impressionante ver as notícias que vieram a público, mais uma vez, neste inverno, relatando o frio que os alunos passavam nas salas de aula por causa da ausência de aquecimento, ou por este ser deficiente. Que não pensem os senhores governantes que o problema fica resolvido com um (!!) aquecedor por sala.
Do alto do seu gabinete na av. 5 de Outubro, o sr ministro David Justino não necessitará provavelmente de luvas para assinar os seus inábeis e improfícuos diplomas.
Necessidades básicas que continuam a não ser respeitadas, e que se transformam num dos problemas que atravessa o ensino em toda a sua dimensão. Os alunos do sec. XXI não merecem que o auge da sua dinâmica escolar seja as fotocópias distribuídas pelos professores.
O ensino superior, etapa final da formação de muitos, que depois ingressam na vida activa, viu as suas propinas “actualizadas”, mas o financiamento continua a não chegar sequer para realizar um plano de
desenvolvimento.
A diferença entre Portugal e a UE não fica por aqui. Sessenta e três por cento da população activa portuguesa tem no máximo a escolaridade mínima obrigatória, 21% a escolaridade secundária e 11,8%, terminaram o ensino superior.
Na UE o valor da escolarização secundária representa 46% e as qualificações superiores 24%. Uma diferença substancial que pode explicar o insucesso, num país em que não existem diplomados a mais,
existe é emprego a menos.
É urgente a educação para vencer a iliteracia, ou à boa maneira dos pedagogos, precisamos de jardineiros para cuidar e fazer crescer o nosso jardim. Não aos moldadores de almas! Viva os jardineiros!
Miguel Rodrigues
Portugal tem memória curta, esquecendo-se que num passado não muito distante, eram aos milhares os portugueses que abandonavam anualmente o país, devido à repressão da ditadura salazarista, à guerra colonial e às difíceis condições económicas do país. Sobreviver era o mote.
Nos anos 60, as remessas dos emigrantes chegaram a constituir 50% do orçamento de Estado, numa altura em que Portugal se encontrava isolado do mundo devido ao mote “orgulhosamente sós”. Segundo dados de 2000, os emigrantes enviaram para casa 3,1 mil milhões de euros, o que corresponde a 3% do PIB português, mais do que os 2,7% do turismo ou os 2,4% do investimento estrangeiro.
Hoje em dia, esquecida a história da emigração portuguesa por muitos, existem ideias xenófobas que proliferam em deixas como “vêm tirar o emprego aos nossos”, como se existisse competição no mercado de trabalho indiferenciado. Infelizmente muitos trabalhadores, mesmo com boas qualificações académicas, chegam à União Europeia e constatam muitas vezes que o seu “canudo” pouco vale na busca de um emprego. Assim encontram-se professores e engenheiros nomeadamente da Europa de Leste, por exemplo, a servir bicas e fazer limpezas, num claro subaproveitamento das suas qualidades que não são reconhecidas pelo Estado. E isto quando conseguem um contrato de trabalho para legalizar a sua situação. Principalmente neste campo é urgente um debate entre nações para que as habilitações sejam automaticamente reconhecidas sem longos processos burocráticos.
Principalmente europeus, asiáticos, ou simplesmente "de língua portuguesa", a sua demanda não é diferente de tudo o que os portugueses procuravam e continuam a procurar: prosperidade!
Existem em Portugal muitos empregadores sem escrúpulos a quem só interessa o lucro e para quem seres humanos não passam de números que podem tanto ser adicionados, como rapidamente subtraídos. Apesar de tudo, existe uma forte razão pela qual sabemos que precisamos de imigrantes: o envelhecimento populacional. E os que temos não chegam, precisamos de mais, principalmente em sectores de grande carência como a medicina, enfermagem, construção civil e agricultura. Os estrangeiros representam 4,5% da população portuguesa, contra os 25% da Suíça, um dos destinos preferidos dos emigrantes lusos.
A grande interrogação da população activa neste momento é se na altura da sua reforma serão justamente pagos pelos descontos feitos durante uma vida à segurança social. Com o actual estado de coisas é pouco provável que o pagamento das pensões de reforma seja justo, em grande parte porque os idosos serão em maior número do que os trabalhadores, e o valor a descontar pelos “mais novos” impossível de comportar. Segundo a avaliação dos dados divulgados por um estudo encomendado pelo Observatório da Imigração (Novembro de 2003), precisaremos de 200 mil imigrantes por ano para inverter esta tendência; valor muito superior aos estimados 27 mil em 2002 e os anedóticos 8.500 da tentativa governamental de imposição de quotas neste ano.
Realce-se o facto de que o processo dúbio que o governo utilizou para chegar a esse número teve como base um questionário a que só 60% das empresas convidadas responderam. É também importante saber que em 2001 o saldo entre as contribuições fiscais e de segurança social dos imigrantes e as despesas do Estado com estrangeiros ultrapassou os 311 milhões de euros, ou seja, houve LUCRO. Mas por cada vinte passos que o governo dá para trás, sempre vai dando um outro passo na direcção correcta, como foi a inauguração do Centro Nacional de Apoio ao Imigrante em Lisboa e em breve no Porto.
Cada um destes pólos tem competências para o apoio aos imigrantes e à sua legalização com departamentos do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), Segurança Social, Inspecção Geral do Trabalho (IGT), Ministério da Educação, Ministério da Saúde, Unidade de Inserção na Vida Activa (UNIVA), Gabinete de Apoio ao reconhecimento de habilitações e competências, Gabinete de Apoio ao Reagrupamento Familiar, Gabinete de Apoio Jurídico ao Imigrante, Gabinete de Apoio Técnico às Associações de Imigrantes, um cibercentro (acesso a jornais, revistas e Internet), uma agência bancária da CGD, uma loja de telecomunicações da Vodafone, um bar e um Fórum Multicultural destinado a eventos culturais.
Estes espaços têm uma configuração já testada pelas famosas Lojas do Cidadão lançadas no último governo socialista e funcionam, no caso de Lisboa, na antiga Escola Secundária dos Anjos (à Almirante Reis; morada: R. Álvaro Coutinho, 14 – 16; horário: 08:30 h – 14:30 h), e no caso do Porto (a partir do dia 29, segunda-feira), na Rua do Pinheiro, número 9. Existe ainda um sítio na Internet, disponível em português, inglês e russo, com diversas informações e contemplando inclusive as associações de imigrantes, em www.acime.gov.pt
Miguel Rodrigues
Napoleão Bonaparte invadiu a Rússia em Junho de 1812 com fins bem definidos. Um deles era tentar arrasar por completo a produção de cânhamo que sustentava o seu maior inimigo, a Inglaterra. Este país importava anualmente quantidades na ordem das 60.000 toneladas, sendo sensivelmente metade deste valor importado da Rússia e o restante de diversos outros países (Itália, Holanda, Turquia, Índias Orientais, e mais tarde importará também dos E.U.A.).
A fibra de cânhamo era importante, todos os navios do planeta dependiam dela, e portanto todo o transporte, comércio marítimos, e principalmente a guerra, dependiam daquela planta. A Rússia, maior fornecedor mundial de cânhamo usado no ocidente, era também o maior fabricante de velas, cordas e redes de navegação, e por isso a mais importante peça deste complicado jogo de xadrez. O linho não conseguia ser um substituto eficiente, pois a salinidade conseguia fazer apodrecer este velame muito mais rapidamente, e em três meses tinha de se substituir o que durava cerca de dois anos com materiais feitos de cânhamo.
O cânhamo eslavo tinha vários tipos, mas três eram de excelente qualidade, entre os quais o S. Petersburgo limpo, Riga limpo (ambos bons para propósitos gerais), o Marienburg real, que era “notavelmente pequeno, branco e macio”, e que servia apenas para lonas de alta qualidade. Da Itália chegava também um cânhamo de boa qualidade, branco e fino.
A Armada britânica, numa tentativa antecipatória dos intentos expansionistas franceses, bloqueia os portos deste país. Napoleão Bonaparte, que não dispunha de uma frota marítima tão poderosa como a inglesa, na altura a maior do mundo, pensa que uma das melhores maneiras de os derrotar será impedi-los de terem acesso à matéria-prima que permite o “funcionamento” dos seus navios. Cumprindo este seu objectivo, assina com o czar Alexandre I em 1807 o Tratado de Tilset, para impedir que o cânhamo chegue à Grã – Bretanha e assim destruir a sua Marinha.
No entanto os esforços gauleses são mal sucedidos uma vez que os russos continuam a negociar e a vender “clandestinamente”. Vendo-se afrontado com esta situação, Napoleão dirige um ultimato a este país para que o tratado seja cumprido e recebe um sonoro “não”. É a gota final que levará à invasão da Rússia em Junho de 1812.
O país governado pelo czar é nesta altura também aliado de Portugal (Tratado de amizade, comércio e navegação assinado em 1798 e prorrogado em Junho de 1812; Tratado de aliança defensiva assinado em Setembro de 1799, na cidade de S. Petersburgo).
O mês de Junho de 1812 é um dos mais importantes desse ano, com os Estados Unidos da América a declararem guerra à Inglaterra, e portanto a juntar uma nova frente de batalha. Mas nem tudo são cardos, uma vez que diversos navios americanos são arrestados e as suas tripulações recrutadas para o contrabandear cânhamo. Os russos contarão com uma preciosa ajuda, do seu inverno, que ajudará a desbaratar exército francês de 450.000 homens, que sem provisões é obrigado a recuar, acabando grande parte do mesmo destruído.
O fim de Napoleão acontece em 1814, com a assinatura em Março do Pacto de Chaumont entre a Prússia, Rússia, Reino Unido e Áustria, formando a Quádrupla Aliança, e a 12 de Março a rendição de Bordéus sem combate ao exército aliado. Beresford comanda uma divisão conjunta britânica, portuguesa e espanhola, que entra na cidade acompanhado do duque de Angoulême, proclamando o seu tio, Luís XVIII rei de França. No dia 31 de Março as tropas aliadas entram em Paris, e alguns dias depois Napoleão abdica a favor do seu filho e mais tarde acabará por capitular. Menos de um ano depois toma novamente o poder mas é vencido por Wellington (o mesmo que defendeu Portugal), em Waterloo, e exilado em Santa Helena, uma longíqua ilha do Pacífico onde acabará por morrer em 1821.
Miguel Rodrigues